quarta-feira, outubro 15, 2008

Leny Bello

Leny Bello

Ela é agitada, ansiosa, irrequieta e sincera. Ela rebate na lata, ela não te falta, ela está sempre pronta. Esse coração aberto de passo marcado, de compasso dividido por quantos for necessário. Essa mulher forte, amiga, leal, que nos apresenta os maiores valores que podemos esperar de uma amizade, carinho e verdade, chama-se Leny Bello.

Já se vão três anos do final de 2005, quando você se mostrou para mim uma grande amiga num momento de perda, com suas sinceras orações pela minha mãe.

Leny, minha querida. Dona Ruth recebeu suas orações, eu tenho certeza disso. Não sei se corações corajosos e generosos como os de vocês duas tem alguma espécie de “clube”, ou sociedade entre os diversos planos espirituais, mas ver nossa amizade, tudo o que você me ofereceu, o exemplo de vida, o entusiasmo, a energia, tudo me vem como uma encomenda de Dona Ruth.

Leny, a cada quarta feira que você ajudava uma entidade assistencial, você me ajudava também. Cada quarta era a “feira” de quinta e com ela eu pude contar durante todos esses meses. Nosso ciclo de Canto e Cantoria este ano inicia agora sua pausa exatamente quando novas oportunidades profissionais surgem para mim. E me dão a certeza de que mais valeu estar ao seu lado, da sua positividade, da sua garra e sinceridade, do que ter dado atenção a tristes vaticínios que tentaram impingir a meu futuro profissional. Meu tambor bate forte e para o bem! Meus “sérios problemas” agora são outros, como por exemplo, tentar conciliar uma agenda. E o de passar as quartas feiras sem sair daqui do Grajau de tardinha, pegando o rumo do Canto e Cantoria, para cortejar sua belíssima obra, minha querida. O ciclo da vida segue, novos ganhos e perdas virão, novas safras e entressafras, mas o que se consolida no coração não se esquece.

Muito obrigado, que Deus abençoe nossa amizade.

João Bani, 15 de outubro de 2008

quarta-feira, maio 21, 2008

Os Grandes Clubes não morrem



Dia de clássico interestadual decisivo no Rio. No Engenhão, Botafogo e Coríntians fazem o primeiro dos dois jogos entre os times, na semifinal da Copa do Brasil
Voltando de um ensaio, chegando com o carro cheio de instrumentos, vejo aquele bar onde há todo tipo de cerveja, todas geladas, ainda aberto. Para melhorar, o gerente ainda é conterrâneo , baiano de Valença, meu amigo Heron. O Rio de Janeiro tem uma identidade com a Bahia que diminui o eterno banzo de todo baiano longe de casa. E a descontração, a conversa de bar, tudo isso nos deixa mais à vontade. Heron é Vitória, e, como tal, aproveitando o bom tempo em que não nos víamos, alfineta com aquela gozação que estava guardada especialmente para mim, depois da conquista do bi-campeonato baiano pelo seu clube:
- Marrapaaazz... Eu nem comemoro tanto o bi campeonato...Bom mesmo é ver o Bahia 7 anos sem ganhar nada...” E cai na gargalhada...
Rio com ele, contrariado, mas rio com o Rio baiano que se mostra ali. Peço uma cerveja gelada, e aproveito para contra-atacar.
-Mas quero uma Original. Nada de genéricos...hehe
E o Rio vai desaguando então ,no bar, com dezenas de torcedores do Botafogo que chegam do estádio Engenhão, templo arrendado pelo clube para mandar seus jogos. Um estádio moderno, que foi construído em função do Pan-Americano do Rio. Os botafoguenses comemoram a vitória de 2 a 1 sobre o Coríntians, nas semifinais da Copa do Brasil.
Vejo a torcida do Botafogo e relembro um dos muitos bons momentos que passei e tenho passado ao lado da minha Vania, botafoguense, ovelha alvi-negra numa família onde seus pais e irmãos são flamenguistas. Era junho de 1989 , ainda vivíamos em Brasília, já havíamos juntado nossos sonhos e esperávamos nosso João Pedro ,que nasceria, como nasceu, no mês seguinte. Pois bem, naquela noite de 21 de junho de 89, um gol de Maurício acabava com o jejum de 21 anos sem títulos do clube da estrela solitária, em decisão contra o Flamengo. 21 anos. Poderiamos até dividir este número por cada um dos seus grandes rivais: Flamengo , Vasco e Fluminense...7 anos sem ganhar, a cada grande adversário.
Minha companheira era uma alegria só, e exigia minha participação na comemoração. Quase relutei a principio, pois, tricolor baiano desde o berço, apaixonado pelo meu Bahia, tenho no Flamengo o time de simpatia no Rio. Afinal se equivalem em seus estados como times de maior apelo popular, e como os maiores vencedores, de conquistas na base da raça, da mística. Mas minha simpatia pelo urubu carioca não era o suficiente para me impedir de comemorar junto com ela , solidário, o fim do jejum alvinegro. Afinal, alguns meses antes ela vibrara comigo acompanhando a grande conquista do meu Bahia no Campeonato Brasileiro. O amor é capaz de coisas assim pelo futebol, ou o futebol é capaz de coisas assim pelo amor?
O Botafogo de 21 anos de seca era alvo de chacotas de todos os torcedores adversários, inclusive minhas. O Valdir Espinosa se revelava ali um técnico habilidoso com o desacreditado material humano com o qual contava, e motivou seus jogadores de uma forma que eles conseguiram se superar. A superação é um bem de quem é grande , de quem nunca perde a majestade. De quem É, não de quem simplesmente está. Desde então, o Botafogo venceu mais 3 cariocas e o seu primeiro Campeonato Brasileiro, se igualando ao Bahia em conquistas nacionais, já que fora campeão da Taça Brasil de 1968.
O Bahia é e será um grande clube. Vai superar suas dificuldades. Me lembrei do exemplo do Botafogo para mostrar que os grandes clubes, grandes mesmo, nunca morrem, pois estão vivos, ainda que por 21 anos ou mais, nos corações de seus torcedores.
BoraBaheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

sexta-feira, abril 11, 2008

Rádio-Cabeça



O ônibus era puro barro, numa Brasília das primeiras chuvas, avenidas monótonas, paisagens que só o tempo deixava desiguais. Era preciso passar muitas vezes por elas para aprender a diferenciar cada quadra da outra, cada parada da próxima ou passada... A música na minha cabeça rolava entre Deep Purple e Noel Rosa. Os primeiros me haviam chegado muito tempo antes, pelos discos do meu irmão. O Poeta da Vila, por uma coleção mensal sobre MPB que tínhamos em casa.

Smoking “under” the water, quase como Jon Lord, Blackmore e tribo, com um cigarro aceso e quase molhando, mas sem mosquito para espantar quase como Noel, eu sem saber vivia o porque da música ser um traço definitivo na vida de certas pessoas. Diante do silêncio da capital nos anos 70, só Música para me fazer companhia nos percursos daqueles ônibus mudos e imundos. Eu desenvolvera em minha mente uma discoteca. Ainda não havia chegado o walkman, hoje eletrônico dinossauro. Rádio com “egoísta” poderia ser uma solução. Mas em stereo, com repertório próprio e com o arranjo destacando o que se queria, somente a Rádio Cabeça.

Morava na Vila Planalto, uma comunidade remanescente dos pioneiros da construção da Brasília, numa bela casa de madeira, com um grande quintal, numa família onde os discos juntavam o sertão de Luis Gonzaga dos meus pais, reminiscências da Jovem Guarda, Chico Buarque, Caymmi, Gal, Gil, Elis, Caetano, Stones, os já citados Purple e Noel, coisas da Motown...Era um ecletismo bastante saudável. Gosto muito do que ouvi. Hoje, sem sugerir uma palavra que os direcione, vejo meus filhos gostarem também de muitas dessas coisas. Descobriram na internet.

A mudança para Brasília, que ocorrera anos antes, fora um dado importante nessa musicalização. As interações culturais da cidade , com gente chegando de todo o país e muitos estrangeiros residentes, destacavam personagens da nova cena musical naqueles tempos ainda de regime militar, quando aconteciam pequenos filhotes de Woodstock nos Concertos ao Ar Livre que os chamados “agitadores culturais” promoviam nas entrequadras.

Mas na minha Rádio cabeça, no Norte daquela bússola onde imerso eu seguia olhando o céu de frente na Capital, naquela metade dos anos 70, um repertório novo surgia . Rose, uma das minhas irmãs, verdadeira Rosa dos Ventos Musicais, chegara em casa com um LP, Minas, de um cantor e compositor que então já era consagrado, mas que passara ao largo da minha Rádio cabeça durante algum tempo. Ouvi, e ouvia o Gran Circo de introdução triunfante, com harpas , com vocalizes do Pará em Fafá, as percussões ricas, o Trastevere me apresentando free jazz com vocais de catedrais. Os compassos compostos soando naturais, as Asas da Panair, o beijo Partido unindo Paula a Bebeto.

Minas , o disco, e Minas , a terra, me mostravam caminhos para tanto lugar... Com divisa relativamente perto do Distrito Federal, pelas bandas da obra de Guimarães Rosa, bem ali estava a Minas do peixe vivo, do Juscelino que gerara aquela Brasília onde embalava os percursos da minha Rádio imaginária agora ao som de um filho seu e sua turma.

Minas, o disco, me levou a Geraes, me resgatou o Clube da Esquina anterior que eu não conhecera, me impressionou com Raça. Me mostrou Journey to Down , viagem melhor que as bad trips de tantos heróis da época. Naqueles ônibus, eu pagava a passagem com um Tostão, One Coin, mais valioso que um milhão. Lília era trilha sonora da L-2, superquadras passando... Com Fé cega e Faca amolada eu enfrentava o vazio do Eixo Monumental. “Menino” me mostrava em barro as crianças largadas na Rodoviária, “Fazenda” era orvalho no seco Cerrado...E eu com o silêncio do ônibus, com gente tão calada nos bancos, tempos de regime militar...Que rádio estariam ouvindo, que programação teriam para animar o silêncio daqueles medos?

Pensei em escrever sobre isso para celebrar uma alegria espiritual e profissional que me tem sido ofertada há alguns anos. A de poder, eventualmente, colocar a serviço do maior hitmaker da minha “Rádio Cabeça” os meus tambores, minha música, o que não deixa de ser uma retribuição. Ele me deu a música, que a tome de volta. Há alguns anos, pela generosidade da confiança do amigo e mestre de percussão Marco Lobo, titular absoluto do time do Bituca, tenho tido oportunidade de participar de shows do Milton, como substituto. Na última delas, em Belo Horizonte, diante de uma multidão na Praça da Estação, tive a boa e velha Rádio Cabeça a me auxiliar , na lembrança daquela trilha sonora que me conduzira pelas ruas de Brasília e que afinal me levara até ali, àquele palco. Fosse futebol o ofício da minha alma e seria como estar em Santos jogando bola com Pelé.

A diferença é que nos jogos do time do Bituca, ninguém perde.

A Rádio Cabeça agradece.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Admiral Eruditino







Admiral Eruditino


Admiral Eruditino nasceu no bairro do Santo Crítico , Rio de Janeiro.

Desde cedo, Admiral vivia um drama existencial, diante da sua sensibilidade que ,pelas circunstâncias da vida, tinha de enfrentar a obrigatória audição dos clássicos populares, verdadeiramente populares, que saindo dos alto falantes de rádios AM, enchiam o ambiente dos seu bairro de "música de baixa qualidade" para os conceitos de Admiral : Odair José, Nadinho da Ilha, João da Praia, The Fevers, Zé Rico e Milionário....

Com seu coração revolucionário compreendia a adoração daquela gente sem dente que o avizinhava por aquele tipo de submúsica: Nem todos tiveram acesso à sua leitura. Nem todos o deixaram jogar bola, mas os livros ficaram com ele. O jovem fã dos ícones da música engajada da sua época, aliás, logo percebeu que bom mesmo era ser ruim de bola: quanto mais caracterizado fosse o seu desprezo pelo esporte alienante, melhor.

Admiral , se não tinha gosto pelo esporte, tecia letras de Música Popular Brasileira, aquela que ele queria popular. Aprendeu um pouco de violão, mas o suficiente para que não fosse considerado um violonista: Ele era compositor. Ele era um revolucionário, tinha que tirar a beleza de poucos recursos, inclusive musicais.

Nisso, colecionava adjetivos irônicos para aquela música que ele desprezava, principalmente para os "culpados" por ela, no seu pretensioso entender.

Do que sei do Admiral é que ele cresceu, constituiu família e trabalhou em jornal, onde por muitos anos esteve, e fez amigos. A demissão veio, junto com uma indenização, o suficiente para se arriscar na gravação do seu primeiro CD. Com doze faixas, vaticinou que quatro, mais populares, quase uma heresia para seu passado, seriam "trabalhadas" junto aos inúmeros amigos que fizera na imprensa.

Implacáveis amigos.

Seria melhor que não escrevessem nada sobre seu disco , que seriam mais amigos: "Letras desprovidas de sentido, num agrado inexplicável ao Axé" ou "Numa toada enervante, de forte acento sertanejo, nos faz crer que uma espingarda de cano duplo seria suficiente, se Admiral tivesse parceiro".

Admiral, convencido pela força da bruta realidade, esqueceu-se da música mas não dos adjetivos a serem aplicados a quem a faz: Hoje é crítico de música em jornais da Internet e ocasional em listas de discussão.

Seu disco faz um sucesso danado nos alto falantes da rádio comunitária do bairro de Santo Crítico: Tocam as quatro comerciais faixas "de trabalho".



domingo, outubro 21, 2007

O músico e o fim do imposto sindical

(Escrevi o post abaixo em outubro. Hoje, já em janeiro, vejo que a esperança em ver um sindicalismo de verdade se esvaiu no lobby dos pelegos de sempre. A proposta do Augusto não prevaleceu)


"Eu acho que o imposto sindical acomodou muito o sindicalismo brasileiro. A verdadeira fonte de recursos do sindicato deve ser mesmo a categoria"
(*)
Lula, em 1979.

Quando ainda funcionário do Banco do Brasil, no final dos anos 70, vi chegar ao BB os ecos da grande movimentação sindical ocorrida entre os metalúrgicos do ABC , como mais uma pá que enterrava o regime militar e os anos de exceção. No Banco, exatamente na agência onde eu trabalhava, lançava-se a candidatura do colega Augusto Carvalho à sucessão sindical da entidade onde pelegavam os resquícios do regime que agonizava, numa mobilização que aproximava das nossas mesas, das nossas máquinas de somar, da nossa papelada e malotes de cheque de compensação uma nova esperança, a mesma cantada na trilha sonora do povo nas vozes de Elis, Milton, Chico.

Vai passar, cantava Chico. Estava passando.

Vi ali nascer o embrião de fortalecimento de uma categoria num movimento vigoroso de sindicalizações , no sentido de levar Augusto à presidência da entidade. Augusto venceu, o sindicato cresceu, os bancários se transformaram na categoria mais mobilizada do sindicalismo, diante da repetição do mesmo fenômeno em várias outras capitais do país.Depois o mineiro de Patos, de presidente do sindicato alçou vôos políticos maiores, como deputado federal, candidato a governador, numa trajetória correta e coerente.

Nos últimos dias, Augusto, Deputado do PPS do Distrito Federal viu sua proposta de extinção do Imposto Sindical aprovada por 215 votos contra 161, encaminhando o texto para o Senado. O Imposto sindical , aquele mesmo que é enfeitado com a denominação de "contribuição sindical", compulsório, caiu na Câmara e está com os dias contados. Agora o sindicalismo só valerá com participação, com campanhas intensas de sindicalização , claro que mediante a justificativa da existência da entidade se cristalizando cada vez mais entre a categoria.

Hoje, distante do Banco de então, que já me dividia com a arte de ser músico profissional, vejo que as entidades sindicais de músicos terão que repetir a história de Augusto, numa eficiente campanha de sindicalização a ser desenvolvida, sob pena de não conseguirem sustentar suas estruturas, já que outra vigorosa fonte de recursos dessas entidades corre risco há algum tempo: O artigo 53 da Lei 3857 que determina a cobrança de 10 por cento sobre o valor dos cachês de músicos estrangeiros que se apresentem no Brasil, destinando à OMB e ao sindicato onde o espetáculo se realizar a quantia descontada, metade para cada entidade. O 53 está sob a mira de empresas promotoras de eventos no país, secundadas pelo forte Lobby de operadoras de telefonia e outros potenciais patrocinadores de eventos com artistas estrangeiros.

Aqui no Rio, em números do final de 2005, a entidade sindical dos músicos tinha pouco mais de 600 sócios efetivamente sindicalizados, pelo menos em condições de votar, ou seja, adimplentes no pagamento da anuidade , que deveria se somar ao agonizante Imposto Sindical. Acontece que o Imposto Sindical alcança a todos os músicos regulamentados, sindicalizados ou não, e mesmo diante da grande inadimplência, significa, ainda, a grande fonte de sustentação da entidade sindical. Agora, com a iminente queda da sua obrigatoriedade, o sindicalismo se verá obrigado a motivar a adesão de novos "sócios", efetivamente sindicalizados, o que inclusive agregará um colorido mais democrático , de maior participação de músicos de todas as matizes e áreas de atuação, não tanto ao Municipal ou ao Canecão, mas muito também aos músicos da noite, esse gigantesco contingente de brazucas que mantém o encanto da música ao vivo perto do dia-a-dia (ou da noite-a-noite) dos brasileiros.

(*)(fonte: Coluna do Elio Gaspari)
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Na coluna do Ancelmo Goís, a nota de que um projeto de regulamentação da profissão de DJ está na mesa do Ministro do Trabalho, Carlos Lupi.
Vem aí uma ODB?
E nós, músicos,não conseguimos dar um passo concreto sequer na modernização da nossa lei de regulamentação, ainda a mesma, como os mesmos são os que se entronizam sentados nela.
OMB - Um problema de gestão? Também. Mas principalmente um problema de indigestão. Com os mesmos de sempre lá, não dá mais pra engolir.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Sem Noção

Que tal fazermos uma campanha para nós mesmos melhorarmos? O que queriam que representasse um povo oportunista, bandalheiro, que não respeita as convenções sociais, que paga propina para a polícia, que atravessa o sinal , que não respeita o pedestre, que explora a empregada doméstica, que tem a lei de Gerson como primeiro tratado a ser obedecido?
Para um povo frouxo, que enxerga os problemas sempre a milhas de distância: não poderia haver nada melhor do que Brasília: "É distante demais, está longe do meu alcance, posso lavar as mãos", diz-se em São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Porto Alegre...
Crivella no Rio, Mercadante em Sampa, e os outros senadores que votaram pela safadeza ou se abstiveram, o que dá no mesmo, volta e meia estão perto dos suas bases, e o que faz o povo? Vai persegui-los, espezinhá-los, pressioná-los? Não. Vai para o botequim fazer cara de Regina Duarte e repetir o noticiário atrás de copos de chopp, falar que o problema está em Brasília, sem saber nem o que tem feito a câmara de vereadores da sua cidade.
Onde estão os "cansados"? Quanto sonegaram este mês?
Onde estão os petistas e o primado da ética de ontem? Francamente, que papelão! Faltam glóbulos para avermelhar a cara, como se avermelhou a estrela?
Onde estava a ética de hoje dos tucanos do seu também corrupto governo de tempos atrás, de Jader, que era o Canalheiros de FHC?
Onde estará a ética de hoje do PSOL amanhã, se no poder?
E nós, onde estivemos, onde estamos e onde estaremos?
Muita conversa, indignação meia-boca. Quero ver é atitude nas ruas. Transformação social em si mesmo, de baixo pra cima, sem subterfúgios, sem conversas à boca miuda, sem artimanhas. Sem fazer, no seu universo político possível, a mesma coisa que se critica na política dos altos escalões da cara de pau . Que cada um procure o Calheiros que há dentro de si, e se o achar, o destitua, o expulse, o casse. Que aproveitemos e façamos o mesmo com o Chavez, o Fidel, o Lula, o FHC, o Azeredo, o ACM, o Luis Estevão, o Bush, o Bornhausen, o Garotinho que habita cada um de nós...
Precisamos respeitar e incorporar os argentinos, que por muito menos , tocam o terror nos canalhas. Precisamos de sangue platino nas veias, porque de "latino", só tem mesmo aquele "cantor" que toca nas rádios seu sucesso bem apropriadamente denominado "Sem Noção".
É um desabafo
João Bani

terça-feira, setembro 11, 2007

7 de setembro


Os olhos diesel vermelhos

que ele é um crack da cola

não tem escolha o menino

nem escola

a infancia em fumaça, presa

verdes anos em veneno

vida baldia, terreno minado

merenda embalada em saco de lixo

em bandos vão , bichos

As pernas magrelas dobradas

agachados,conferência

desafiando omissão

debochando da decência

fazem tremer a madame

enervam o guarda civil

gargalhada pueril

é tosse que lacrimeja

por olhos diesel vermelhos


segunda-feira, agosto 27, 2007

Coral

Colore o cenário e os cílios

Carrega os filhos e as cores

Coral

Marcenaria e ilha

Cara e coroa

Coral

Segredo de um sucesso

Apenas mais um, que se cora

Coral

Garganta a pleno vapor

Em águas de sulfura pura

Coral

Cantando no fundo do mar

Rasgando as peles em pranchas

Coral

Alimento nas marés

Tropeção para os banhistas

Coral

Harmonia em profusão

Nas águas da convivência

Coral

Alegria e mais alegria e mais alegria e embevecimento vocal

sábado, junho 30, 2007

Evilásio e o Habeas Corpus

Nos últimos anos, o trabalho me tem sido generoso em oportunidades de visitar minha terra, Salvador, e assim poder passar uns dias com meus pais, rever irmãs e amigos, parentes, sabores e lugares da capital da Bahia. Sair a pé pela cidade, do Campo Grande ao Pelourinho (êta! tá parecendo letra de música de bloco baiano!), refazendo trajetos há muito e muitas vezes vividos, respirando os sons da cidade, saboreando imagens... Ou uma ida até a Cidade Baixa por Itapagipe, berço da minha infância já relatado aqui em “As mães e as manhãs” e na lembrança da baiana Leonor em “A culpa é do orégano”, para ver qual o aspecto atual da antiga casa da Rua da Imperatriz. Conferir se finalmente despoluíram a Praia da Boa Viagem, relembrar a praia do Humaitá, provar os sabores da sorveteria da Ribeira, sorver uma cerveja gelada e comer siri-bóia no bar da Tia Maria, na Pedra Furada... Minha terra é um insulto à tristeza.

Mas é um convite à placidez e à meditação, quando o dormir dos alto-falantes e sistemas de som presentes em praticamente todas as barracas de praia nos permite esse sossego. Pois nada como ler um livro e olhar o mar, olhar o livro e ler o mar, numa mesinha à sombra, num dia de semana de praia vazia.

Sempre que tocando em Salvador, dispenso o hotel e vou para a casa dos meus pais, na Pituba, bairro litorâneo que cresceu e se afirmou na preferência da classe média soteropolitana entre os anos 60 e 70. Sua praia já foi muito freqüentada, mas a crescente poluição do Rio Camurujipe, que deságua na praia vizinha de Costa Azul, diminuiu em muito sua balneabilidade, porém as barracas de praia, a cerveja gelada, os caranguejos e a placidez continuam lá, a alguns passos de casa.

Numa dessas manhãs, já perto do meio-dia, me instalei num banquinho de uma daquelas barracas silenciosas, ao som de um mar maculado, mas ainda de um tom azul Caymmi a espumar um branco oxalá nas pedras e areia, e fui recebido pela simpatia sarará da Dona, cerveja super gelada mergulhando naquela cápsula que se pretende conservadora da temperatura ideal da “loura”. Mansamente agradecido à qualidade de tal aquarela de etnias, cores humanas e “cervejais”, arrisquei um caranguejo.

-Não tem! Caranguejo tá um horror de se encontrar. Dizem que deu uma praga que não se acha mais caranguejo que preste por aqui, mandam vir de avião, de Belém do Pará e eu não tenho o pistolão de conseguir... Mas tem lambreta, agulhinha-frita, sururu...

Aproximava-se a hora do almoço e eu fazia o pacote perfeito para um dia de folga: Uma caminhada até a praia, uma cervejinha, algumas páginas, conversa fiada e contemplação, antes da caminhada de volta a casa. Caranguejos, com a trabalheira que dão para serem comidos, até abrem o apetite, até porque para se saciar de caranguejo são necessários alguns, não um apenas. Sem caranguejos, já perto de almoçar, resolvi ficar somente na cervejinha mesmo

Então, como do nada, surge alguém que pode agregar se não caranguejos, pelo menos outros crustáceos ao cardápio da barraca: Um vendedor de siris. Um tipo baiano espigado, chapéu de palha, samburá cheio de siris pendendo do ombro, se chega à barraqueira com familiaridade e é recebido efusivamente:

- Digaí, freguesa, olha que bitolão de siri? Tirado hoje do mar...

-Mas rapaz!!! Quem é vivo sempre aparece! Quequiá, menino? Como você tá, rapaz? Tomou juízo?

-Vamos indo, né... Correndo pro bicho não pegar, fazendo minha parte... Atrás do meu sustento...

-E aquele amigo seu, aquele que não é muito certo, como é... Evilásio! Evilásio tá preso ainda?

-O quê? Evilásio? Evilásio tá é muito bem solto. Se não tiver roubando de novo, amén!

-Marrapaaz, aquele apronta muito!

-Evilásio arranjou um advogado bom, sabe lá como, o advogado conseguiu um Corpus Christi pra ele, que já tá na rua tem tempo...

Não pude conter o riso diante da expressão equivocada do amigo do tal Evilásio. A barraqueira perdeu a fala e arriou sua cabeça em sacolejos de riso sobre o balcão da barraca, olhava pra mim, entre uma gargalhada e comiseração pelo amigo:

-Quiá quiá quiá... Isso é uma heresia, rapaz, você quis dizer Habeas Corpus, né não? Ah esse menino... Quáááásss... -as lágrimas chegavam a brotar dos seus olhos.

-E eu sei? Não tenho formação pra isso não! , ria também o pescador e, virando-se na minha direção: Não é, meu senhor? Cadê o estudo que o governo não dá? , politizou nosso amigo, com o que concordei.

-Claro... E certas palavras confundem qualquer um... É isso mesmo.

Fiquei imaginando a saga daquele conterrâneo, buscando no mar seu sustento, seguindo caminho árduo, mas que lhe dava as portas e braços abertos de amigos como aquela barraqueira, e tendo o privilégio de poder rir de si próprio, por não precisar de habeas corpus da sua consciência, como necessitaria Evilásio, uma arraia-miúda perto dos tubarões que estão soltos por aí, roubando de novo e sempre.

quarta-feira, junho 20, 2007

PRESENTES DO ESPÍRITO SANTO E OUTRAS CONSIDERAÇÕES



Tirar as estradas dos mapas, viajar pelos sertões vencendo cada milímetro do atlas escolar, apertado entre irmãos numa Rural Willys, ou numa Kombi, isso é recorrente nas minhas lembranças da infância. Acompanhar meu pai em suas viagens pelas cidades do interior baiano onde ele ia inspecionar o ensino público do Estado. Tão devotado meu pai, um educador apaixonado pela profissão.

No início , o mundo rodoviário era entre Salvador e Seabra, na Chapada Diamantina , terra do meu pai e meus avôs, e cidades circunvizinhas. Um milhar de quilômetros adiante da Chapada, diziam as placas, havia Brasília.

Brasília.

Era só meter o pé na estrada, atravessar o São Francisco na balsa, comer muita poeira e chegar à Meca de JK, eu imaginava ainda menino. A Serra da Mangabeira, imponente, parecia demarcar o início da mudança de Sertão para Cerrado.

Sobre Brasília, tanto a se falar, mas o que prezo muito é a invejável condição que uma capital nascida do nada pode reunir: Exatamente por nascida do nada, nos trazer tudo. Todo o norte, todo o nordeste, todo o centro oeste, sul e sudeste, verdes, recém chegados , a criar animadas rodas de amigos, a conviver dendê com chimarrão, chula com carimbó , samba de roda com samba-canção.

Brasília segue submetida à pechas injustas e cruéis para uma cidade. Xingamentos que deveriam atingir sim a determinadas figuras que habitam seus gabinetes e escritórios de lobbyes, mas que têm suas matrizes, seus nascedouros de lama em seus estados de origem. Melhor ainda seria se atingissem antes nossas próprias consciências ao votarmos em nossas cidades, tendo compaixão com a Capital e com o País, mandando gente honesta para lá.

Mas muita gente honesta e amiga deixou suas terras, venceu suas serras da Mangabeira e aportou na capital ,desde sua construção até hoje, eleitos pela obrigação profissional , em sua maioria.

São inúmeras as pessoas em Brasília com quem desenvolvi laços de graus variados de amizade. Laços que desatam nós de preconceitos regionais, que nos mostram quão infame é qualquer motivação separatista ou xenófoba neste País.

A bordo da hospitalidade de famílias amigas , como a de Stenio Bruzzi e Dona Regina Vereza Bruzzi, pais do grande amigo Reginaldo, da Rita e da Marta, pude ampliar o alcance do meu atlas, da minha imaginária viagem dentro do mapa, observando diminuir a quilometragem restante para o destino daquela viagem de férias: O Estado do Espírito Santo, para onde seguia a família Bruzzi, eu convidado deles.

Lagoas de Coca-Cola, a fábrica de Bombons Garoto, a Praia da Costa, a Barra do Jucu, a vida marinha à mesa, eis o Espírito Santo. A beleza suave das capixabas, a fala meio mineira à beira mar. Ao norte, a Bahia, ao sul o Estado do Rio, a Oeste Minas, a leste o oceano com marlins azuis, badejos, peroás e onde a imaginação nos levar, o Espírito Santo , esse embaixador do criador, o canal de comunicação com o Pai.

Voltaria depois para participar de um show de aniversário da cidade de Cachoeiro do Itapemirim acompanhando o artista brasiliense Renato Mattos , quando mais um presente o Espírito Santo me deu: Um passeio numa Maria Fumaça por serras enflorestadas, com bandas de música nas estações, com presépios, laranjas, feijões e uma música de Gilberto Gil no walk man embalando o café-com-pão-café-com-pão do som ferroviário:

João Sabino :

Tava comendo banana pro santo

Pra quem?

Pro santo

Pro santo espírito senhor

Pai do filho do Espírito Santo

Senhor pai do filho do Espírito Santo

Senhor pai de quem?

Filho do Espírito Santo

Filho de uma localidade de lá

Nessa localidade de lá

Uma abertura de si

Uma embocadura pra dó

Sustenindo uma passagem pra ré

Mi bemol

Já traz o som, o eco

A claridade

Ainda um pouco abaixo do horizonte

Atrás do monte

De mi pra fá

Sustenindo, suspendendo

Sustentando, ajudando o sol

Nascer

Aqui na terra

Atrás da serra

Cachoeiro do Itapemirim

O sol nascer

João Sabino, eu imagino

Quando era menino, via assim

Melhor que qualquer fotografia , a música parece nos trazer de volta não só as imagens como os cheiros, o ar entrando pelas janelas do trem, a densa floresta debruçada sobre a serra recortada pelos trilhos, precipício acima e abaixo, uma beleza natural que parecia gritar ,abafando o ruído do trilhar do trem. Isso foi há mais de 20 anos.


Dia 16 de junho , sábado passado, cheguei quase à metade da idade do meu pai. Fiz quarenta e cinco, ele faz 92 em setembro. Segundo ele, cheguei à idade da maturidade, quando melhoramos, depuramos o que de melhor temos sido para conduzir nossas vidas, pois é o que temos daqui por diante. Tomara que esteja certo, pois percebi que o nível 4.5 traz de volta o embevecimento de menino e uma certa fragilidade que nos faz crescer diante de quem nos gosta, por aguçarmos nosso olhar, aprimorarmos nosso toque, dosarmos nossas palavras, nos despedirmos daquela tola mas necessária sensação de independência e onipotência que se inicia após a puberdade e nos acompanha durante um bom tempo, mas que tem prazo de validade.

Nesse dia eu estava em Vitória , no Espírito Santo, para participar de mais um show acompanhando Jorge Vercilo , no Teatro Glória. E foi sob efeito de 45 anos de vida e diante da platéia, que me vi por ela homenageado, pelo Vercilo e todos os outros irmãos dessa nômade família que é a banda.

Lá no palco ouvindo um parabéns pra você, encabulado, eu notava que um casal me acenava com um instrumento musical que eu não conseguia identificar na hora, mas que me proporcionou muita alegria, quando recebi das mãos de Néia e Júnior uma autêntica Casaca do Mestre Vitalino.

Não, o frio não era intenso, nem Mestre Vitalino se trata de um nome destacado em confecções de inverno. Casaca é como se chama uma espécie de reco-reco usado pelas bandas de Congo do Espírito Santo, trabalhado e esculpido com esmero, de sonoridade forte e expressiva.

Um mimo sonoro que vai me acompanhar em muitos sons por aí, marcando mais uma vez na minha vida a simpatia do povo capixaba.

Era mais um presente do Espírito Santo

És empírico Santo, Espírito. Só experimentando pra saber.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Cor do Rei




A cor do Rei

João Bani

Certa vez na internet
Numa peleja de verbos e parco conhecimento
Da dimensão do elemento colocado em discussão
Não foi por vinte merréis pra pagar três e trezentos
A arenga do momento era a cor do rei do Baião

Cego mesmo ele não era, de Aderaldo o talento
Um globo ocular ocultando a santa terceira visão
Um olho morto por fora, enxerga tudo por dentro!
Outro bem vivo e atento, vê morena inspiração!

Soba, retinto ou cafuso
Sarará, bugre ou mulato
Cabo-verde misturado
Caboclo cabra da peste
Alma viva do Nordeste
Ave Luar encantado

Se era preto ou mestiço
Se tinha olho postiço
Me diz: que tem tudo isso
A ver com a auréola da Lua?
Gonzaga banhando o roçado
Luiz animando a rua
Xaxado, xote e baião
subindo a poeira do chão

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Bahia: Capoeira, Tambores e Futebol.


O Futebol , como praticante, nunca foi meu forte, nem esse esporte teve ou tem destaque maior dentre as atividades dos filhos de Dona Ruth e do Professor Sá Teles, desde os tempos de Itapagipe, em Salvador, até nossa vida em Brasília.

Meu pai até tem em suas memórias publicadas, referências ao time de basquete que treinou , formado pelos seus alunos no agreste da Chapada Diamantina nos anos 30/40. Minha irmã mais nova, Joseane, é uma formadora de jovens atletas de GRD - Ginástica Rítmica Desportiva, profissional dedicada e competente, e seus filhos são bons de bola, mas nada podem esperar nesse sentido dos tios, eu incluído.

Minha relação com o esporte sempre foi difusa, como na capoeira onde ingressei, já morando em Brasília, como aluno do saudoso mestre Chibata. Assim me tornei percussionista: Mais entusiasmado com os pandeiros, atabaques e berimbaus, do que com as "negativas", "Meias-Luas-de-Compasso", "Queixadas" e "Martelos-rodados", preferi rodar em direção à roda de samba, me afastando da de capoeira, mas ainda levando a certeza de ter sido batizado de alguma forma na arte de promover a cultura que o sangue dos meus ancestrais deixou marcada em mim. E o mestre Chibata, baiano de Mar Grande, era um desses embaixadores da cultura negra. Ensinava a jogar capoeira, ensinava a tocar, a cantar e a ser um cidadão brasileiro.

A força da origem me legou a alcunha de "Baiano". João, Baiano, torcedor do Bahia tal qual o professor Sá Teles. O "Baiano" se reduziu e virou Bani, apelido aplicado pelo anglicismo roqueiro e gaiato de um saudoso amigo, Fábio, guitarrista dos bons, e assim ficou até hoje. Seria uma referência a Bunny (Wailer) Livingstone, percussionista integrante e mentor dos Wailers , banda primal de Bob Marley e Peter Tosh, dos quais sempre fui devoto, desde aqueles tempos. Ouvir reggae, tocar tambor e torcer pelo Bahia: A pretíssima trindade que embalava minha juventude.


Torcer pelo Bahia, morando em Brasília, era uma resistência cultural diante da predominância de torcedores de times do Rio, São Paulo e Minas. As informações sobre o tricolor eram parcas. Eu ficava procurando um posicionamento favorável do aparelho para sintonizar melhor a Rádio Sociedade da Bahia AM ou Ondas Curtas, e acompanhar os jogos do Esquadrão de Aço baiano. Naquele tempo valia a pena. O Bahia era quase imbatível na Fonte Nova, seu templo, e sempre estava bem colocado nos campeonatos brasileiros, sem passar o vexame que vive nos dias de hoje, rebaixado à terceira divisão. Era um entusiasmo que me levou à ilusão de me acreditar um jogador de futebol: Cheguei a treinar nos mirins do CEUB, em Brasília, como um lateral direito atabalhoado mas corredor, porém sem futuro algum. Pelo menos, a prática dos treinos me garantia alguma desenvoltura para, nas férias em Salvador, formar canchas imaginárias de "Perivaldos", "Baiacos" e "Douglas", ídolos tricolores da época, com meus primos, nos campos de "Baba" e nas areias batidas da praia de Placaford. As mesmas areias que , de tão batidas, não amorteceram o impacto sobre o meu braço, numa queda que levei jogando, devido a uma rasteira de um oponente desleal: Quebrei o braço. Percussionista de braço quebrado é cantor afônico. E fiquei por mais de 50 dias sem poder tocar meus tambores: Desanimei com o futebol.

Esse desânimo com a prática do Futebol chegou ao torcedor, já há alguns anos, enquanto tenho acompanhado a decadência imposta ao Esporte Clube Bahia pelos seus dirigentes. Desde a metade dos anos 90, o Bahia, Bi Campeão Brasileiro, o clube com mais títulos e maior torcida, dentre todos os do Nordeste do país, detentor de vários recordes de público no futebol brasileiro, tem sido submetido a vexames, rebaixamentos à segunda e terceira divisões, sofrido goleadas, e humilhações. Mas sempre manteve a capacidade de formar bons jogadores.

Ontem eu pude resgatar um pouco da alegria de ser Bahia, graças aos jovens da categoria de juniores, com menos de 18 anos, que representam o tricolor na Copa São Paulo de Futebol Junior. Apesar de tratados pelo clube com uma precária alimentação à base de arroz e pão com ovo, eles vêm fazendo uma campanha espetacular e , num jogo heróico diante da Ponte Preta tiveram a capacidade de lavar a alma dos verdadeiros torcedores do Bahia. Já fizeram muito por nós, acordando de novo a dimensão do que é ser torcedor do Esquadrão. Se não passarem pelo Atlético do Paraná, tudo bem. Mas a garra dessa turma me mostra que ainda é possível tirar aquela velha camisa azul vermelha e branca da gaveta e gritar: É CAMPEÃO!

Enviei um texto sobre o assunto, que foi publicado no melhor portal dos Bahia na WEB, o www.ecbahia.com.br, o qual reproduzo aqui:

OS MENINOS DO "PÃO COM OVO".

Hoje , mais uma vez, pude ter de volta a emoção e alegria de ser baiano e Bahia. Prato na mão, ainda almoçando, vi honrando a camisa tricolor garotos da idade do meu filho, que ao meu lado, mastigava seu bife prestando atenção, vendo seu pai ser menino de novo.

Do goleiro Júnior ao Anselmo Ramón, todos eles me reafirmaram que o Bahia é vivo, que o Bahia vibra, que o sangue de Marito, Baiaco, Douglas, Bobô, Charles é linhagem pura que se incorpora quando aquele manto colorido com a glória do mais tradicional e querido Estado do Brasil se veste sobre esses novos baianos.

A personalidade do Eduardo, a garra e liderança do Williames, a técnica a serviço da garra que o Ananias apresenta, não dá pra destacar poucos. Todos se empenharam em cada lance , não vi nenhum momento de displicência. A finalização os traiu diversas vezes, mas a justiça olhava pra eles com carinho. Viria a vitória com dificuldade, mas viria.

Viria após um empate cavado por um ensaboado Paulo Roberto, levando ao desespero os garotos tratados a leitinho Mococa da Macaca. Viria na expressão de quase desdém do garoto Júnior diante do perplexo primeiro cobrador da Ponte, que teve sua cobrança defendida pelo arqueiro tricolor. E pelas cobranças certeiras dos garotos sérios, raladores, que merecem já toda a nossa compreensão e respeito. Não vamos errar dessa vez. Vamos saber como cuidar desses meninos, para que eles nos tragam alegrias no profissional. Não vamos queimá-los. Eles não são os "Ronaldinhos baianos". Eles são eles, somente. Nós teremos alegria ao olhá-los de frente.

Já os algozes do Bahia não. Petrônio, Maracajá e CIA devem se envergonhar de ver essas crianças sustentando a honra de um Clube que eles insistem em enterrar. E se envergonharão de ver que, acima daquele glorioso escudo, as duas estrelas amarelas não são MANCHAS DE OVO do pão com ovo mirrado que os meninos tem que comer. São as estrelas dos dois campeonatos brasileiros que tornam esse clube grande. Tão grande quanto esses garotos sabem honrar

terça-feira, maio 16, 2006

O Rádio, o Rio e uma grande amiga, irmã até no nome.





O rádio , volta e meia, mostra que está bem vivo.

Acessório indispensável em muitas situações, recentemente vivi uma delas quando, passando em frente a um Maracanã onde Flamengo e Atlético Mineiro se enfrentavam, resolvi assistir à segunda metade da partida, e cheguei como pé-quente: em poucos minutos de segundo tempo, o rubro negro carioca ampliou o placar. Ante o encantamento de sempre com que o Maraca nos presenteia, eu acompanhava a partida buscando identificar os jogadores. Fosse o tempo de Zico, Adílio, Andrade, e eu saberia exatamente quem estaria no comando da esférica. Mas como não sei identificar "Leos","Jonathas" e outros que compõem o atual elenco do clube da Gávea, caiu como um raio a saudade de um velho companheiro: O rádio.


O rádio da casa dos meus avós , na Várzea do Caldas, Bahia, se bem me lembro, era em madeira, com telas de tecido na proteção do alto falante, botões grandes frontais e um "dial" que trazia ondas em diversas metragens de banda. Trazia Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Bahia X Vitória, discurso de político, noticiário, trazia a vida de São Paulo - a capital do sertanejo migrante, de tantos que saíam daquelas paragens em paus de arara; trazia a vida do Rio - a capital da imaginação, pelo menos a minha, que imaginava de longe a beleza e a alegria da cidade maravilhosa. E em ondas curtas, ladainhas em inglês, japonês, árabe, espanhol, alemão, entre ruídos e entrecortes de interferência - a rádio "fugia" ou "voltava". E sempre havia a "rádia" preferida, como matutos se referiam às emissoras...Tudo chegava pela antena que se colocava em cima da casa, um fio comprido ligado por dois pinos , de ponta a ponta do telhado que olhava o céu do sertão, a cobertura da Chapada Diamantina.







As ondas nos traziam restritas e censuradas notícias de Brasília. A vida nos levou até ela.
Na Capital , meu pai, investido nas suas novas funções no Ministério da Educação, viajava o país inteiro a serviço, e de uma dessas viagens me trouxe um rádio de Manaus. Um Mitsubishi, com capa de couro, que acho hoje ser o meu I-pod de então. Não havia emissoras FM, na capital, naquele início de anos 70. Só rádio AM e Ondas curtas, mas que eram o meu almanaque falado, e cantado: "O Globo no ar", a "Turma da maré mansa" e o melhor programa de todos vinha com um anúncio :"Hello Crazy People, aqui fala Big Boy, apresentando o Baile da Pesada!!!.

O discotecário carioca,figuraça e muito louco, pela rádio Mundial, me levava os primeiros acordes da música que toca e tocará sempre a vida de muita gente dos 12 anos em diante: o rock, o soul, a cena pop do momento. Digo isso pois vejo meus filhos repetirem essa trajetória no seu gosto musical, sem prejuizo do ecletismo e da saudável disposição a conhecer outros estilos.

Pela Mundial eu ouvi certas músicas somente uma vez, e faltando pedaços, que a "estática" se encarregava de encobrir, inclusive o anúncio do título e do intérprete. Hoje em dia, a estática está aposentada: As rádios FM tocam as músicas e não esclarecem nem quem as está cantando, quanto mais que as compôs.

Mas o som que vinha do Rio me trazia a Motown, a legendária gravadora de black music norte americana: Diana Ross, Jackson Five, Gladys Knight,The Commodores, Stevie Wonder. Do outro lado do quarto, meu irmão mais velho ouvia as mensagens cifradas da MPB engajada de Chico, Caetano, Gil driblando a censura, cinzeiro em cima do jornal Pasquim...
Eu ligava o meu rádio e através do "egoísta" (como chamavam o fone de ouvido mono) tentava conhecer um pouco daquele Rio distante, através dos anúncios das lojas, lanchonetes ( vivia a imaginar o sabor de um lanche no Gordon, no pioneiro Bob´s) do noticiário, e principalmente do que seria a atmosfera envolvida por aquela música que nem brasileira era, mas que parecia tanto com o Rio.

Que outra cidade poderia nos revelar a autenticidade de um Cassiano, um Hildon, um Tim Maia, uma Lady Zu em sua soul music, no rithm'n blues? Podem os guardas alfandegários das fronteiras musicais terem implicado em muito com eles, mas quero dizer aqui: Tinhorão, críticos, naquela época eu nem sabia quem eram vocês. Segundos cadernos de jornais: Eu não os lia. Que bom.

Refleti muito sobre isso nesse fim de semana, tocando meu djembé com vassourinhas, cajon e pratos, num Shopping em del Castilho em acompanhamento a uma querida amiga, cantora admirada e talentosíssima: Claudia Telles, com o mestre Marcelo Lessa ao violão..

Diante de uma platéia onde as estrelas eram as mães , as homenageávamos com um repertório de Jobim, presente no último Cd da Claudia. As belas imagens do Rio nas canções do Maestro Tom fluiam das bocas de gente de todas as idades, cantando junto , acompanhando essa menina que não é "canária", canta como gente mesmo. Essa garota que também empresta a beleza da sua voz e sua técnica apurada a tantos outros artistas, em gravações fazendo "backing", como que fluindo de um côro de todos os louvores. Essa querida amiga que tem Telles no nome, um nome que agrega o seu talento e o de sua mãe, uma página de ouro da nossa música, um Teles que também tem o escriba aqui, que já a elegeu irmã há muito tempo...Vou deixar escapar esse aspecto de termos o mesmo sobrenome? Como se fosse preciso...

Claudinha em seus shows sempre levanta a maior emoção da platéia quando canta seus dois maiores sucessos: "Fim de Tarde" e "Eu preciso te esquecer", duas pérolas de Mauro Motta e Robson Jorge, e que são pura Motown. A platéia, coral carioquíssimo, suingue zona norte, cantava junto enquanto eu, tocando, me lembrava que essas canções me chegaram primeiro pelo rádio, em alguma noite brasiliense de sintonia com a trilha sonora dessa terra de Claudia Telles, Sandra de Sá, Rosa Maria, Fernanda Abreu e tantas outras divas que mostram que a trajetória da música nascida dos negros americanos, no mundo, se espalha em mil linguagens e idiomas, mas só vale se for cantada com o suingue e a calma da alma, etérea como as ondas do rádio. Bela como as ondas do Rio
.

domingo, maio 14, 2006

As mães e as manhãs


As manhãs são como as mães, chegam primeiro, nos acordam, nos aquecem, nos põem de pé no mundo.

Escrevo agora de manhã cedo tentando ouvir de novo , como que do andar de cima do sobrado da Rua Imperatriz, os ruídos esparsos de panelas, de alguém que preparava, sol ainda ralo, um consistente mingau, um café, beiju de tapioca, um cuzcuz de milho. E me fazia descer a escada, pelo corrimão onde eu me imaginava um super herói, toalha-capa amarrada às costas, seguindo o aroma como em desenho animado, em direção a ela.

Tudo nela era suave e amoroso. Seu canto entrecortava o som que os navios ancorados na Baía-de-Todos-os-Santos emitiam, se anunciando a todos os moradores da Península de Itapagipe e arredores, amanhecendo aquele lugar. Acomodada ao lado, minha irmã mais nova , com pouco mais de um ano, um tanto impaciente esperava que o mingau esfriasse, balançando as gordas perninhas, expulsando a chupeta num início de choro, logo contido pelo calor e pela luz daquela mãe maravilhosa.

Enquanto regia as panelas, ela me lembrava de escovar os dentes, lavar o rosto, pois , antes do delicioso mingau que preparava, era preciso tirar o "mingau-das-almas", curiosa designação à baba ressecada que cerca os lábios de quem acorda. Quem prestou atenção ao que disseram seus pais, seus avós, de acordo com a idade, vai ter ouvido falar um dia nessa expressão.

E o dia começava, os nove filhos em profusão iam tomando seu rumo no dia, sempre passando pelo carinho daquela que sabia a matemática de dividir com perfeição.

Ainda pudemos viver com ela muitas manhãs, de Itapagipe a Brasília,e cada morada teve seus coadjuvantes em torno daquela que despertava o respeito com a simplicidade e com a força do coração.

Longe dos navios da Bahia, vivemos o contraste de tudo aquilo no traço das superquadras do Plano Piloto de Brasília, depois amaciados pela vida quase rural na Vila Planalto e nossos cachorros, nossas galinhas, papagaios...Tudo se acercava dela e do seu carinho. De volta a Salvador, na Pituba ela acolhia o amanhecer dos filhos já com seus netos e bisnetos..

O aroma do mingau se esvaíra, as sirenes dos navios se confundiram com o ruído da rua, mas até hoje ainda sinto o aroma da sua alma, do seu carinho, o som afinado do seu canto acalanto.

Estamos juntos, todos nós. Ruth, o Professor e seus filhos.

sábado, maio 13, 2006

O Queixada - ( Uma crônica canina do Grajaú)



O Snak Bar, aos domingos, é uma versão etilizada do burburinho da pracinha Edmundo Rego, onde se encosta, no final da Engenheiro Richard, aqui no Grajaú.

Na pracinha: as criancinhas, as vovós, os atletas domingueiros, os jogadores de dominó, os de botão , os poodles, os chihuahuas, os bull-terriers, os shllksjlshwaizers...

No Snak Bar: o Croata, o Itamar, o Marquinho-Sete Cordas, os coroas, o PC, a Nete, a Neide, a Vovó, o Gripado e o Queixada. Do Croata à Neide, todo listado mundo é gente, mas a Vovó , o Gripado e o Queixada são representantes do segmento canino dos vira-latas.

A Vovó aparecia de vez em quando. Ficava mais do lado da rua, junto ao ponto final do ônibus, onde os motoristas do 434 a tinham como mascote. Dava gosto de ver o pelo lisinho da Vovó, que sempre rosnava para os irritantes poodles que tentavam fazer festa com ela. O Gripado também nunca mais vi, acho que virou pneumonia. Mas costumava ficar por lá pelo Snak, esperando aquele disquinho de calabresa já frio, que sobrando na mesa, ia parar na sua barriga sarnenta. Um olhar para o bebum, um balançar de rabo, um arfar e um espirro. Espirro canino é engraçado. Elesacode o rosto todo e fishishh!

Já o Queixada...
O Queixada fazia o circuito Açougue/SnakBar.
No açougue, o Queixada sempre lograva , pela manhã, devorar pedaços de apara de chã, capa de filé, refugos em geral, que fariam a ração necessária de proteina de muita gente por aí.
Sua cara preta e sua "boca-de-chove-dentro", com aquele sorriso político eterno, cativavam as donas de casa que sempre pediam para o açougueiro lhes entregar a parte que foi retirada . durante a limpeza da carne. Esses acepipes tinham destino certo: As mandíbulas proeminentes do Queixada. Depois, quando o açougue fechava, o Queixada ia para o Snak Bar , e lá ficava a "secar" nossos pastéis, empadas, bolinhos de carne, e a coisa até melhorava quando o Croata resolvia fazer um churrasco cotizado por todos, ao ar livre..Vida boa...Pra melhorar, só quando surgia alguma canina no cio, e o Queixada partia para cima, caprichando no repertório de galanteios, patinha por cima do dorso...O baixinho era fogo...

Mas num desses últimos fins de semana em que estive lá na praça, uma cena me surpreendeu... Coleirinha no pescoço, uma guia e uma dona , lá ia o Queixada, quase cambaleando pela praça, buscando um rumo, avexado que estava com todo aquele aparato que lhe envolvia. Até um boné lhe foi colocado, o que certamente o fez alvo de gozações dos "sem-raça da praça" .
Fora adotado!
Fico imaginando a angústia do baixinho passando ao largo do açougue, do snak, das cadelinhas...
Nada supera a liberdade.

J.Bani