domingo, maio 14, 2006

As mães e as manhãs


As manhãs são como as mães, chegam primeiro, nos acordam, nos aquecem, nos põem de pé no mundo.

Escrevo agora de manhã cedo tentando ouvir de novo , como que do andar de cima do sobrado da Rua Imperatriz, os ruídos esparsos de panelas, de alguém que preparava, sol ainda ralo, um consistente mingau, um café, beiju de tapioca, um cuzcuz de milho. E me fazia descer a escada, pelo corrimão onde eu me imaginava um super herói, toalha-capa amarrada às costas, seguindo o aroma como em desenho animado, em direção a ela.

Tudo nela era suave e amoroso. Seu canto entrecortava o som que os navios ancorados na Baía-de-Todos-os-Santos emitiam, se anunciando a todos os moradores da Península de Itapagipe e arredores, amanhecendo aquele lugar. Acomodada ao lado, minha irmã mais nova , com pouco mais de um ano, um tanto impaciente esperava que o mingau esfriasse, balançando as gordas perninhas, expulsando a chupeta num início de choro, logo contido pelo calor e pela luz daquela mãe maravilhosa.

Enquanto regia as panelas, ela me lembrava de escovar os dentes, lavar o rosto, pois , antes do delicioso mingau que preparava, era preciso tirar o "mingau-das-almas", curiosa designação à baba ressecada que cerca os lábios de quem acorda. Quem prestou atenção ao que disseram seus pais, seus avós, de acordo com a idade, vai ter ouvido falar um dia nessa expressão.

E o dia começava, os nove filhos em profusão iam tomando seu rumo no dia, sempre passando pelo carinho daquela que sabia a matemática de dividir com perfeição.

Ainda pudemos viver com ela muitas manhãs, de Itapagipe a Brasília,e cada morada teve seus coadjuvantes em torno daquela que despertava o respeito com a simplicidade e com a força do coração.

Longe dos navios da Bahia, vivemos o contraste de tudo aquilo no traço das superquadras do Plano Piloto de Brasília, depois amaciados pela vida quase rural na Vila Planalto e nossos cachorros, nossas galinhas, papagaios...Tudo se acercava dela e do seu carinho. De volta a Salvador, na Pituba ela acolhia o amanhecer dos filhos já com seus netos e bisnetos..

O aroma do mingau se esvaíra, as sirenes dos navios se confundiram com o ruído da rua, mas até hoje ainda sinto o aroma da sua alma, do seu carinho, o som afinado do seu canto acalanto.

Estamos juntos, todos nós. Ruth, o Professor e seus filhos.

15 comentários:

Renio Quintas disse...

Querido irmão, a poesia invadiu essa minha manhã maternal de forma tão colorida, que vou passar o dia compondo! Fui abraçar D. Ruth e visitei seu sobrado em Itagipe e ainda senti o cheirinho do mingau, quase caiu em mim! Beijei D. Ruth
com carinho de filho!
Bj carinhoso,
Renio Quintas

Paloma Menezes disse...

Bani,que texto lindo que vc postou.
Sua palavras são belas.
Digo novamente para vc: PARABÉNS.
Vc é uma pessoa com muito talento.
No show que teve ontem aqui em Guarulhos vc não veio,espero te encontrar logo logo para poder te dar os parabens pessoalmente.
Vc sabe se vai para Santos???
Maravilhoso domingo pra ti viu.

Beijos

Renata Santos disse...

Que linda homenagem Bani!
Graças a Deus existem seres como vc nesse mundo, Ave tua mãe Bani!
Q as manhãs possam ser eternas enquanto durem!
bjuxzão

Renata Santos disse...

Falou e disse Bani!
Assino em baixo.
E que essas manhãs sejam infinitas enquanto durem...
Q a vida seja sempre celebrada a cada dia, não de nossa existência, mas sim de nossas criadoras, nossas lecionadoras com diploma da vida!
bjuxzão

João Bani disse...

Rênio, meu irmão...
Obrigado pelo carinho
bjs
JB

Paloma, querida, obrigado.
Estarei em Santos, se Deus quiser.
bjs
JB

Eliane disse...

Querido Bani!
Num mundo tão cheio de mesquinharias que nos cercam... essa falta de paz(vide os noticiários) ler palavras de tão grande poesia é um presente pra alma. As almas são eternas e de sua mãezinha agora mais iluminada pela sua bela homenagem.
Parabéns por esse grande talento!
Beijos carinhosos,
Eliane

Luanda Cozetti disse...

Bahia que lindo...
Saudades da minha...
Com amor,
Luanda!

João Bani disse...

Pois é querida Lu,
Nossas queridas mães a essa hora já devem se conhecer, pois partiram no mesmo ano passado. E zelam por nós.
Elas sabem que a vida de músico é difícil ,mas é feliz.
beijos

Pedro Vallocci disse...

Tio Bani,
linda, a sua crônica. Nininha, no céu, continua sendo o que sempre foi: um anjo. Agora, cuidando de nós um pouco mais de perto.
Abraços,
Pedro

Gaia disse...

Bani,
Que lindo texto!
Vc herdou do nosso pai o domínio das palavras e da poesia, e retratou com muita sensibilidade e maestria as nossas manhãs em Itapagipe. Realmente a nossa mãe "despertava o respeito com a simplicidade e com a força do coração." E lá do céu ela nos acalenta com seu imensurável amor.
Beijos,
Gaia

João Bani disse...

Pedro,Gaia..
Nossa querida Nininha está sempre conosco.
bjs
João

Gabi disse...

Bani
Um dia , há um tempo atras, eu me deparei com esse texto por acaso. E ele não mais saiu da minha cabeça e agora tenho o prazer de " reencontra-lo"
A maneira como você " desliza " as palavras é de uma sensibilidade ímpar. Que coisa mais dócil...
Viajei em " suas manhãs" , seus aromas, seu barulho do navio.
Ah...e sua mãe...como deve ter sido uma criatura maravilhosa hein? nove filhos e tanta delicadeza...
Parabens por suas palvras...me emocionei de verdade!
Mil bjs
Gabi( mãe dos Vis rsrsrs)

João Bani disse...

Gabi, minha querida
Essa sua mensagem me alegra muito por dois motivos: Pelo carinho da amiga que prezo muito, e pela aprovação crítica de uma "filha (e companheira) da poesia".
Dona Ruth era O amor em pessoa, uma mãe caridosa não só dos nove filhos legítimos, mas dos tantos que ela acolhia e legitimava com seu amor. Pelo que fez aqui na terra, deve ter muito prestígio "lé em cima". Pense nela quando precisar de ajuda como mãe, ela sabe das coisas e vai te ajudar...
beijos, mande também pra Jorge e os meninos.
Bani

Lúcia disse...

Puxa! Descobri este blog por acaso e dando " uma olhadinha" deparei com este texto.
Acha bonito fazer uma pessoa chorar no início da tarde de domingo?
Lindo demais este texto. Que sensibilidade!

PÁRABENS

João Bani disse...

Obrigado, Lucia.
Volte sempre.
abração