sexta-feira, agosto 16, 2013


ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO. QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS OU FATOS SERÁ MERA COINCIDÊNCIA. (João Bani)

Salvador, julho de 2016.


Sobre o aparador da sala, um porta retrato com imagens da família numa lancha, tendo ao fundo  a famosa Ilha da Caraíba, em Santa Cruz, BA,  um pedaço de paraíso que ficou conhecido nacionalmente em 2007  quando a Operação Jaleco Branco, da Policia Federal, encarcerou temporariamente Marcelão, seu pai.
Oferecendo um copo, que recuso, de um legitimo Blue Label (o seu preferido, Green, saiu de produção – “Deixou saudades”, diz ele) Marcelinho deixa soar um suspiro saudoso, reminiscências de um tempo de poder na politica e no futebol da Bahia. Seu olhar repousa por alguns segundos na janela, parecendo buscar no horizonte o passado que perdeu.
-O assunto vai ser política partidária ou política do Bahia? – me pergunta o ex-deputado e ex-presidente do maior clube do Nordeste e um dos maiores do Brasil. – vamos adiante.
-O Bahia foi o meu maior acerto e  meu maior erro. Minha vida foi conduzida por meu pai tanto para a politica quanto para o Bahia. Por não ser sinceramente da minha vontade, fracassei em ambos.
Pergunto se o Centro de Treinamento criado na sua gestão não lhe orgulhava, ele desconversa, para finalmente revelar:
-Eu era refém da OES. Nós não conseguíamos obter patrocínio com nenhuma outra grande empresa, que justificasse o Bahia envergar a marca. Perdemos várias possibilidades devido a questões contábeis e legais do clube. Reconheço: fui leniente. Por isso, quando o Carlão (Carlos Barreiros, presidente da OES) numa festa na casa de Duda, me revelou que a empresa estava de olho na região de Lauro de Freitas para construir um grande conjunto residencial, eu meio que de brincadeira, perguntei se ele não queria comprar o Fazendão...(risos). Daí, em diante, a história é conhecida. No que pode ser conhecida... A Cidade Tricolor,e um patrocino anual certo, ainda que modesto, mas segurou muita coisa para nós.
Pergunto sobre o futebol, as decepções e alegrias.
-O futebol para mim era algo que conseguia suprir minha pretensão. Tirar o clube da série B foi uma realização que estava do tamanho do que eu achava suficiente para o Bahia. Quando vi que a contratação de Angioma  tinha me auferido aquela conquista, relaxei e deleguei, deixei  Angioma livre para cuidar do futebol , negociar, etc...Havia atritos dele com Nilton na questão da base, mas tudo era resolvido pelos empresários dos meninos. As contratações eram definidas por Angioma e empresários influentes, alguns dos quais me foram apresentados pelo Senchez, como o Carlos Milk, por exemplo.
Reporter: E a Calcio?
-A Calcio precisava ser criada. Ninguém no futebol se empenha por diletantismo, por entrega. Só a torcida... rsrs...A Calcio era o suporte para o Bahia II, aquele que tinha prestigio  na base e suas competições e seleções de base, mas parava por aí. Já no profissional, havia outro grupo de interesses. Se na Calcio/base o foco era a venda, no grupo de empresários de Angioma o foco era a aquisição de jogadores desempregados. Mas havia situações em que esses focos se entrelaçavam.
Reporter: Angioma foi um acerto?
- De alguma maneira, acredito que sim. Como falei, nos legou a subida para a série A. Mas cedeu demais aos seus empresários chegados, quando montou aquele time que disputou o baiano, em 2011. Ele menosprezou o campeonato baiano e resolveu montar uma “creche” de jovens jogadores formados, mas rejeitados por times do sul/sudeste, depois  de profissionalizados. Ignorava solenemente nossa base, salvo se algum dos seus empresários passasse a gerenciar a carreira.  O episódio dos jogadores no fim de 2010, que romperam com o clube, como Alysson, Fernando, a briga de Jael, tudo isso era Angioma impondo quem ele queria e quem ele não queria no elenco. Eu lavei as mãos: O futebol do Bahia estava sob direção de um profissional reconhecido e famoso. Não era responsabilidade minha...
Reporter: E as promessas não cumpridas? De democratização, de abertura para os sócios?
-O torcedor do Bahia é um abnegado. A participação política do tricolor sempre foi sua presença vibrante nas arquibancadas. Nem teria condições de arcar com despesas mensais  de associação. A direção deve ser feita por quem tem segurança econômica. Esses representantes históricos do Bahia, como meu pai, como o Paulo (Maracujá) e outros deram muito de si para esse clube. A conta não estava paga ainda...
Reporter:...Até chegar a intervenção?
- Sim, até chegar aquele movimento politico comandado pelo PT de Jacques Wagner. Aquilo foi uma violência desmedida, em conluio com publicitários... E o preconceito contra a “Ribeira”? Eles queriam certamente “a turma do Itaigara” , não da Ribeira, no comando.  Falando em PT, uma grande decepção foi  a contratação de Cristóvão, que depois descobri ser filiado e fundador do PT...
Reporter:...E que legou ao torcedor o quarto lugar no Brasileiro de 2013 e o terceiro título nacional em 2015, ano passado...?
- Mas ele fez tudo sob a estrutura que montei! A cidade tricolor, principalmente, foi um diferencial tremendo. O Bahia hoje entra em campo como time grande
Reporter:...E passou a entrar com os salários em dia, as contas saneadas, aliado a uma fortíssima marca, com 60 mil sócios,  com um valor de patrocínio entre os cinco maiores do Brasil, tendo passado para a terceira faixa de cotas de TV...
-Mas tudo isso foi resultado do trabalho que iniciei, não tenha dúvida!
Reporter: A auditoria feita no Clube durante e após a intervenção acabou levando o Senhor e outros ex-dirigentes a mais de um processo criminal. Pelas apurações solicitadas pelo Dr. Rátis...

-NÃO PRONUNCIE ESSE NOME NA MINHA CASA!!! SEU MOLEQUE!!! RISADINHA...Ô RISADINHA! TIRE ESSE REPORTER DAQUI AGORA, BOTE ESSE CARA PRA RUA, JÁ!!!

domingo, abril 29, 2012

Obrigado, Mãe Bahia.

Baianos são nômades. Apesar da adoração pela própria origem, metem o pé no mundo e levam seu berço a todo lugar. Uma identidade cultural forte, quase religiosa, sincrética, ou melhor: sincrétnica, mas fundamentalmente própria se mostra em vários cantos e amplos do mundo.

O Rio de Janeiro, essa histórica Meca nacional, tem uma população de baianos que nos leva a imaginar que se o Rio e Bahia fossem países diferentes, baianos teriam Green Card na Terra de São Sebastião. São muitos: natos baianos do dendê ou  cariocas da gema filhos e netos de baianos exercendo todo tipo de atividade: não vamos cair no estereótipo da música ou das artes. Estamos nelas sim, mas fundamentalmente estamos em todo ramo de atividade. O túnel Rebouças que reúne a Zona Sul à Zona Norte, por exemplo, tem seu nome em homenagem a dois irmãos de Cachoeira que fizeram história na corte carioca: André e Antonio Rebouças, pilares da nossa engenharia, e num tempo escravista, negros abolicionistas. E baianos.  Como são baianos muitos jovens profissionais que trazem sua força de trabalho e talento ao Rio hoje em dia.

Mas para o torcedor do Bahea, vale mesmo é  que o túnel lembra Roberto Rebouças, zagueiro padroeiro da defesa tricolor, e liga a Zona Sul à Zona Norte, onde ficam Vila Isabel e o Andaraí, os bairros que disputam a localização da Trigo e Cevada, onde se concentra a Embaixada Tricolor Bahea da Guanabara para assistir os jogos do Bahia.
Neste domingo, a expectativa que havia de acompanharmos o tricolor se esvaiu com as noticias de que o PFC não transmitiria o jogo. Ignorou completamente a razão, bom sujeito não foi, e , ruim da cabeça, chutou nossa perspectiva com seu pé doente. Mas somos da turma tricolor: um laptop com conexão e um site transmissor de sinal da TV Bahia, de Salvador (é essa pirataria de sinal que eles querem estimular?) nos fez tentar, a lentos quadros por muitos segundos e até mi, tentar acompanhar o jogo entre Bahia e Vitória da Conquista.

Sinceramente, quando escrevo esse texto, nem tenho como detalhar nenhuma emoção do jogo em si, pelo que acontecia nele. A tortura era tanta, pelas precárias condições de acompanhar a luta tricolor em campo, em  imagens  que congelavam após um lançamento em direção ao gol adversário,ou aquela troca de passes invadindo a área do bode,que o grito de gol nunca foi tão surdo. Porque se frustrava na própria expectativa do fim da jogada. Havia uma jogada de perigo e ela parava na Rede Sacana de Computadores. Cobrança de lateral ou comentaristas falando abobrinha, tudo bem: parecia que estávamos em tempo realmente real, a transmissão corria solta e leve.  Mas bastava o tricolor partir para cima articulando nossas expectativas e ...Travava.

Ficávamos esperando o tempo da transmissão se regularizar na esperança de podermos ver algum dos nossos vibrando em direção à torcida.

Nada.

Até que tudo parou de vez. A transmissão caiu. Nada se sabia sobre o jogo do Bahia. Minutos terríveis se passando naquele zero a zero que eliminaria o tricolor da final.  E oito  bravos tricolores baianos no Rio se calaram. Nossas mentes foram invadidas por tudo que o silêncio pode proporcionar aos 42 minutos do segundo tempo com seu time caminhando para uma eliminação. Todo tipo de imaginação, toda multiplicação da tristeza.

Então um telefone tocou.
O que pode gerar um celular tocando num bar? Nada de especial, muitas vezes nem seria  atendido. Mas não esse.
Alguém teve esperança:
-Foi gol.
Cada um de nós olhou para aquele aparelhinho com olhos de fome feliz, esperando um sorteio, uma notícia boa  do ultimo sopro de esperança

O Dono atendeu:
- Oi mãe, e aí?

Os olhos do filho brilharam felizes,

-  GOL DO BAHEA PORRA!!!

Dona Ana, mãe do Mateus “Coroa”, muito obrigado, minha querida tricolor.
A senhora, quando ligou de Salvador  para dar um presente ao seu filho aqui no Rio, adotou prontamente mais sete "filhos".  
Meu número é 8602 7761. Fique à vontade pra me fazer feliz sempre que quiser.


João Bani


quinta-feira, março 08, 2012

domingo, outubro 23, 2011

Se liga, Salvador

Moro no Rio desde 1995. Cheguei aqui no momento crescente ao ápice da violência urbana da capital carioca. Graças a Deus, nunca fomos alvos de abordagens violentas, agressões. Infelizmente meus filhos tiveram seus celulares roubados, por adultos desarmados, eles ainda crianças. Não foram agredidos, sempre os instrui a como agir nesses casos. Mas nada além disso, que aliás já foi bastante revoltante.
Nos primeiros meses aqui no Rio, houve noites em que eu não conseguia dormir, com o som dos tiroteios entre facções do tráfico, disputando os morros da Tijuca, onde morei inicialmente. O som dos tiros era algo comum, os lugares a serem evitados eram muitos, a tensão era constante. Mas os cariocas que eu conhecia repetiam: "Isso é em todo lugar! Toda cidade é violenta!"
Como músico, eu viajava pelo Brasil, até esquecia do som dos tiroteios. De volta ao Rio ,mal passava pela Linha Vermelha e tome som de tiro. Por vezes até correndo risco de ser atingido. E os cariocas: "Isso é em todo lugar! Toda cidade é violenta!"
Chacinas, gente morta e torturada, bondes cruzando a cidade, arrastões, mais e mais tiroteios, mortos por bala perdida, aleijados por bala perdida, e o carioca: "Isso é em todo lugar! Toda cidade é violenta!"
Um garoto é arrastado vivo se despedaçando no asfalto, por assaltantes, um helicóptero é derrubado por bandidos, um jornalista é torturado e morto e o carioca:
Bem.. o carioca começou a perceber que isso não ocorria em toda cidade do Brasil, Ou começou a admitir e colocar o orgulho e o bairrismo no seu devido lugar: no lixo. Porque enquanto se achar que o problema é menor porque seria "dos outros também", ele vai crescendo no nosso quintal.
Se liga, Salvador.

quinta-feira, setembro 29, 2011

As muitas gavetas do Rock in Rio

Tô indo hoje com Vania ao "Rhythm and blues and Soul and Symphonic in Rio".  Porque de fato, Rock nessa quinta feira no palco Mundo do Rock in Rio , só com muita boa vontade na homenagem ao Renato Russo, se aturarem o Minczuk. Fui dar uma olhada no som da Kesha, que eu não conhecia, e de rocker ali só a lembrança que sua imagem me trouxe da saudosa Rê Bordosa, personagem Junkie do cartunista Angeli.

Mas o assunto que ocupa as redes sociais,o tema  que impulsiona o lugar comum da web é a escalação de Claudia Leitte e Ivete Sangalo no festival. Comparações que projetam  hipotéticas participações de Mettallica em cima de um trio  no Carnaval Baiano, ou de Iron Maiden numa micareta, e por aí vai. Aliás, comecei minha ida profissional  tocando em trio elétrico (tocávamos Human Nature, tocamos até "Birdland", do Weather Report, em ritmo de galope) e acredito que os gringos adorariam tocar num trio, iam matar a pau e cair no gosto do carnavalesco baiano, sempre pronto para novas propostas sonoras,apesar do massacre midiático dos mesmos produtores e artistas de sempre. Taí: lançaram uma idéia. Não se admirem se num próximo carnaval uma banda Heavy do mais puro Rock esteja em cima de um trio, no carnaval baiano.

Essas situações de confronto entre tribos musicais me lembram um show  no Espírito Santo, longe dos holofotes, mas uma experiencia que vivi profissionalmente no fim dos anos 80. Escalado num festival onde as grandes atrações eram bandas como Angra e Sepultura, o artista baiano/brasiliense Renato Matos, no palco,  teve que dominar  uma enorme platéia de metaleiros raivosos que esperavam os irmãos Cavallera (ainda em começo de carreira, mas já um mito do  povo Metal) entrar e quase silenciaram em vaias o reggae-porrada de Renato. Até ele pegar da platéia uma bengala com uma caveira de cachorro e começar a repetir um refrão, aos brados: 'UNIVERSIDADE, PEDAIS E GUITARRAS CUSTAM OS OLHOS DA CARA", sacudindo no ar aquela cara de osso de cachorro, sem olhos... Ganhou o povo...Depois, Adriano Faquini salvou de vez a pátria trazendo de volta Janis e Hendrix com sua voz rara...Melhor que jogar água mineral.

Vejo essa discussão requentada sobre a alegada incoerência da participação de Claudia Leitte e Ivete Sangallo nesta edição do Rock in Rio mais uma vez, como  uma vitrine de marcação de posição e de limites, da afirmação pessoal do próprio gosto, feita de forma coletiva.
Aquela mijada no poste (ou no post?) que o cachorro dá: "Esse lugar é meu!" "Essa área é minha"!! "Ó meu nome aí"!!!

O descabelo do jovem rockeiro vendo artistas alienígenas num festival que tem nome de rock equivale ao "humpf" bovino e desdenhoso que o dândi jazzista-purista solta quando vê num dos muitos ditos "Festivais de Jazz" que pulsam pelo mundo, artistas das várias "gavetas" que a mídia precisa criar: "Étnicos", "World Music", "MPB", "Reggae" e...Rock!

Pra ilustrar, lembro aqui uma lista de artistas que se apresentaram em edições anteriores do Rock in Rio:

Baby Consuelo e Pepeu Gomes
Ney Matogrosso
(tô até considerando o Tremendão Erasmo como Rock)
George Benson
(tô até considerando o Folk James Taylor como Rock)
Al Jarreau
Gilberto Gil
Elba Ramalho
Ivan Lins
Alceu Valença
Moraes Moreira
Prince
Jimmy Cliff
New Kids On The Block
George Michael
Elba Ramalho
Ed Motta
Roupa Nova
Daniela Mercury
Milton Nascimento
Orquestra Sinfônica Brasileira
Carlinhos Brown
'N Sync
Britney Spears
Sandy e Junior
Zé Ramalho
Rihanna
Katy Perry
Stevie Wonder
Jamiroquai
Isso porque fui condescendente com alguns artistas que não citei, mas que não são artistas "do Rock".
Num mundo cada vez menor, fica cada vez mais difícil não bagunçar o gaveteiro. O pessoal tá muito "organizadinho", atitude nada rocker ;-) . 

segunda-feira, janeiro 17, 2011

As Brigadas Lúdicas sobem a serra.

Com Fotos de André Mantelli

O sol tímido despertando o domingo  no Rio não disfarçava o grande céu cinzento na direção da serra. O mini-ônibus partia do Circo-Sede da Crescer e Viver com 7 artistas entre palhaços, malabaristas, um fotógrafo e um músico, com Junior Perim à frente, organizando essa brigada lúdica. Segui com um pandeiro, alguns instrumentos de efeitos,  e representando nosso centenário Sindicato, observando de que maneira podemos engajar nossa participação nos próximos dias.

As paisagens da janela ainda na Baixada Fluminense disputam espaço com as que imagino encontrar no nosso destino. Os relatos de parte da equipe que um dia antes já estivera por lá nos preparam mais que o noticiário da TV, que os jornais.
Estrada adiante,  iniciamos a subida dentro daquela natureza grandiosa. Passamos pela entrada de Petrópolis, mais um pouco e chegamos a Itaipava, onde começam a aparecer os caminhões do Exército,  muitos carros com doações, muitos voluntários, numa manhã de trégua na chuvas,  mas em céu bastante encoberto.

Em Itaipava somos direcionados a fazer nossa atividade num abrigo no Vale do Cuiabá, para onde partimos, obedecendo a uma contínua e necessária triagem feita pelas autoridades no caminho. O desolamento da paisagem se aprofunda, a cerca viva ao lado da estrada, que antes cercava casas,  agora cerca o nada. Uma máquina de lavar pendendo de um galho de árvore da "nova" margem do rio nos dá uma idéia da tragédia.Colchões, chinelos, cadeiras, brinquedos, fogões, cadernos, espreguiçadeiras, automóveis dispostos no desordenamento imposto pela natureza implacável, que ainda assim prevalece em suavidade pela sua própria beleza.

Chegando ao local, um ginásio de um clube que se tranformou em alojamento abriga algumas famílias,com seus pertences que conseguiram recuperar e suas sentinelas vivas: seus queridos e fiéis "Hulks", "Shadows", "Rex's" e outros belos e nobres viralatas que serão suas casas onde elas estiverem. Suas casas são os corações dos seus donos.


Com  cabelos de fogo e olhos assustados de  água, o pequeno e machucado Caio nos recebe cumprimentando um a um. Do monociclo, dos malabares,  bolas, da alfaya, dos pandeiros, eles vão se acercando cumplices da alegria.
Guilherme quer ser músico. E vai ser dos bons: explorando o girassino, um instrumento percussivo com 5 notas de ré a lá , já descobriu algo parecido com "Frere Jacques", que ele conhece como "a música dos dedinhos, da Eliana".
Eduarda desenha casas lindas com canetinhas coloridas e me deu uma de presente.
Douglas mostrava o que aprendeu a tocar no pandeiro, na Igreja.

Mas num canto com a avó ao lado, com um psicólogo voluntário que atua na região, a Gabriela, irredutível chorava não querer saber mais de viver, quanto mais de palhaços, músicos, circo, pandeiro ou canção. Um choro mais de revolta que de dor. Revolta com a própria dor, com o próprio sofrimento. Para ela não tinha cabimento nenhuma alegria, até ser cortejada pelo Café Pequeno.

Café Pequeno, o palhaço,  faz surgir flores do chapéu, chegou com seu grande sapato, e o espetáculo começou, a trupe se desorganizou em círculo, a mulher mais alta do mundo, o monociclista, o malabarista, a palhaça amiga, o mestre de cerimônias..Hulk, Shadow e seus companheiros viralatas se transformaram em "Leões", os risos brotaram vivos em todos, e então reparei que Gabriela também gargalhava, sua beleza explodia em sorriso.
Aí quem quase chorou fui eu.


As Brigadas Lúdicas do Crescer e Viver, com a participação do SindMusi,  estão se organizando para novas ações ainda esta semana e nas próximas, e diferentes artistas poderão levar sua colaboração aos que precisam desse ânimo na alma, pra aguentarem a barra que estão passando.
                                 

quinta-feira, dezembro 02, 2010

BUNGEE JUMPING JACK FLASH

Nunca fui de esportes. Era um péssimo gandula nos jogos colegiais, um verdadeiro cofre na natação, um bicho-preguiça no atletismo.O coração viajante nas reentrâncias das meninas de short, inacessíveis à minha cara de "CDF" , o "nerd" daqueles tempos, um ser estranho ao suor da juventude.
O quatro-olhos.
Cresci, me formei, me bem-sucedi profissionalmente numa grande empresa, casei e meu coração um pouco mais velho começou a vagar nos riscos da nostalgia, da busca do tempo perdido em mais tempo de vida com esportes, com emoções. Passei a reforçar o coração com caminhadas em altas conversas matinais.
Queria mais
Ousar
Mas o passado ferrenho intimidava a coragem tardia

Um sopro de valentia me trouxe a solução
Deixei o medo esquecido, entre teias no porão
Pra não deixar que a emoção na minha alma se feche
Hoje mergulho em vazios
BUNGEE JUMPING JACK FLASH!

quinta-feira, novembro 25, 2010

Meus alunos da Vila Cruzeiro no Coração do Conflito

Toda sexta feira eu pego o ônibus 622 rumo à Penha, para meu trabalho semanal no Projeto Social IBISS, no coração da Vila Cruzeiro, onde dou aulas de percussão.  A Vila Cruzeiro é uma das favelas de maior situação de risco social, sede do comando da maior facção armada do tráfico na cidade. Ontem, o Brasil viu mais uma vez cenas de confronto no local, com vários mortos. 

Um percurso de uma hora de ônibus, daqui do Grajaú até lá, que passa por cenas de transformação e degradação social. Transformação na reurbanização, nas obras do Teleférico,  nos conjuntos habitacionais. Degradação nos zumbis “crackudos” que vemos vagando nos bairros do subúrbio do Rio, rota do 622 até a Penha. 

Descendo do ônibus,  até a sede do Projeto, vou caminhando entre pastores pregando o evangelho, biroscas que vendem de tudo, funk e gospell nos autofalantes das rádios comunitárias, balcões de frutas e DVDs piratas, motos, muitas motos de diversos modelos se impondo sobre todos os passantes, borracharias, quitandas, vira-latas, uma gigantesca porca com uma cria numerosa comendo lixo abandonado a céu aberto, mães levando os filhos à escola, e muitos sentinelas armados, muito bem armados, de quem comanda o lugar. 

O Projeto fica num prédio bem equipado, erguido ao lado do “Campo da Ordem e Progresso”, onde cresceu aprimorando a sua “bomba santa” o jogador Adriano. Tem salas de atividades culturais, atendimento médico, psicológico, dentista, piscina semi olímpica e quadra de esportes. 


O entra e sai da criançada no Ibiss, que trabalha também com outras faixas de idade, varia muito de acordo com a situação: Tempo de vento eles ficam na rua, soltando pipa. Muito calor, vão à piscina. Mas a nossa percussão das sextas feiras criou já uma turma  fiel. E entre caixas, pandeiros, surdos, repiques, congas e atabaques, na convivência com essa criançada eu vi muito mais valores positivos do que qualquer coisa. Pela criatividade, pelo talento musical natural, capacidade de improviso, pela educação e comportamento moral nem sempre encontráveis em jovens e crianças de melhor berço, e por me  mostrarem que crianças são crianças em qualquer  lugar. Nem sempre “o meio” as modifica.

Imagino que muitos que só conhecem o que ocorre nas favelas do Rio através da mídia,  devam achar que a situação seja um pacto social próprio entre traficantes e moradores, onde os primeiros são os protetores e os segundos os protegidos. Na verdade os primeiros são outros opressores e os segundos, os de sempre oprimidos. Além da opressão histórica determinada pelo descaso dos poderes públicos e da sociedade “civilizada”, quando os escravos libertos tiveram suas “novas senzalas” determinadas nos piores locais das cidades, na criação das favelas, desde que o crime “se organizou” eles convivem entre dois fogos.

Meses atrás, num dia de aula, um esparso tiroteio começou a se ouvir relativamente perto, e uma menina de uns cinco anos se agarra em mim, tremendo de medo. Outra chora. Quem tá acostumado, quem se acostuma com isso?

Ontem uma jovem de 14 anos foi baleada (Por quem? Nunca se sabe) e morreu. Balas encontradas de uma sociedade perdida não têm CEP, nem telefone, nem email. Rosangela freqüentava o Projeto e não tinha nada a ver com o oficio dos bandidos nem da policia. Foi morta. Bem como outros inocentes que ficam à mercê dessa guerra. E se o asfalto se desespera entre automóveis incendiados, os moradores do morro já sofrem com isso há tempos.

Essa reação das facções pelas UPPs significa que as Unidades estão cumprindo sua função nas comunidades onde foram implantadas.  O preço da necessária  pacificação vai envolver ainda mais sangue. Que não seja sangue inocente. Peço isso por Rosangela, Breno, Kevyn, Luciano, Hugo, Alan, Luciana, Thiago, Daniel, Jorge, Mateus, Felipe, Mayara, Dentinho e tantos outros que tem sido pequenos mestres de vida para mim.

João Bani – Rio, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, novembro 03, 2010

Joao Bani - Algumas variações em Djembe com vassourinha

Bahia X Coritiba

Vi que o Bahia teve foi muita sorte de não perder o jogo.
O resultado, pelas circunstancias foi positivo pra gente.
O fato de Jael perder o penalti foi "justiça divina". Não foi penalti. Outra jogada reclamada pelo Coritiba, igualmente não foi. Por outro lado, a jogada que o cara do Coritiba meteu a mão na bola foi penalti. Um juiz de um Estado que não figura nem na série A nem na B, apitando jogo de dois campeões brasileiros dá nisso.
Esse time do Bahia  parece, como visitante, jogar contra os adversários da mesma forma como Coritiba jogou contra nós: Articulado, armando as jogadas. Será que a massa os intimida? A responsabilidade?
Jael, definitivamente precisa cair na real , pois está muito inconstante como jogador. Acho que tá rolando, não diria uma máscara, mas um deslumbramento num cara de 20 e poucos anos, que nunca havia experimentado antes a situação de quase idolo diante de uma torcida dessa magnitude.
Parabéns à nossa torcida que, para os que falam em "qualidade", essa coisa quase imensurável numa torcida de futebol, demonstrou uma real qualidade, uma qualidade HUMANA: solidariedade pelo jogador adversário, que, fraturado, saiu de campo aplaudido e apupado pela torcida tricolor.
Torcida que foi até magnânima com o Bahia que, bem abaixo do futebol que poderia apresentar, e diante de um adversário mais competente, saiu aplaudido, mesmo tendo feito um gol e entregue o jogo em tempo tão curto, e logo ao final.
Finalizando , o seguinte: Camisa comemorativa muito bem vinda em homenagem à galegada baiana, mas  é bom usar  quando há algo para comemorar em campo também. Ainda não subimos, e tampouco somos campeões.
Vamos subir primeiro, pra homenagear ou celebrar alguma coisa.
As cores do esquadrão fizeram falta hoje. Ali tem mistica, tem o nosso Estado estampado nas nossas cores e no nosso nome. Esporte Clube[b][blue] Estado da[/blue][red] BAHIA.[/red][/b]
Nossas glórias se refletem nessas cores.

sexta-feira, outubro 29, 2010

segunda-feira, outubro 18, 2010

sábado, setembro 18, 2010

Márcio Araujo: Um legado de Telê Santana

Vendo o futebol corajoso que o Bahia assumiu, eu que não via isso há muito tempo nos quase quarenta anos que acompanho o tricolor-que virou um arremedo de si mesmo a partir de 2003-fui pesquisar mais sobre nosso técnico, esse pacato e humilde senhor que chegou sob pesada desconfiança de uma torcida que não o conhecia, sendo alvo de manifestações de desaprovação, mas sem nunca perder a serenidade.

Milton Neves, twitteiro compulsivo, já se manifestara sobre Marcio no site de relacionamento como "Um dos maiores caráteres do futebol". Até aí tudo bem, mas apreensivos, nós torcedores estávamos à espera de um  técnico que, ainda que marrento e políticamente incorreto que fosse, não importando o caráter,  conseguisse dar  um estilo de jogo ao Bahia coerente com suas tradições, o que Renato, voltando a ser Gaucho no seu Grêmio, não havia conseguido. Teria tentado?

Pesquisando no Google sobre Márcio, esse técnico de currículo e marketing tão discreto como sua própria personalidade, descubro:

Márcio Longo de Araújo (São José do Rio Pardo, 7 de maio de 1960) é um treinador de futebol brasileiro. Atualmente, comanda o Bahia.
Carreira: Sua primeira atuação foi na Sociedade Esportiva Palmeiras em 1997. O início de seu trabalho teve a orientação de Telê Santana. Contudo, por motivos de saúde, Telê ausentou-se do Palmeiras e Márcio conduziu os trabalhos até o fim do Campeonato Paulista do mesmo ano."

Tá explicado.
Márcio potencializa o futebol, como o seu orientador fazia. Quem via o futebol das equipes treinadas por Telê contemplava a coragem na ponta da chuteira, o pragmatismo sem invenções, mas com muita sabedoria. Uma leitura aguda de cada jogo, uma habilidade em modificar as situações que dava a cada jogador a plena confiança na sua capacidade de reverter resultados adversos, o que o Bahia vem conseguindo.
Obrigado, Márcio, por estar vivenciando finalmente seu legado do querido Mestre Telê Santana, no Bahia. Você vai ser muito feliz nesse clube e nós felizes com seu trabalho.
Tenho certeza.

quarta-feira, abril 21, 2010

Ama de Música (Brasília)




                                                           João Bani

Eu tinha nove anos
E você já feito onze
Da Bahia me levaram numa máquina do tempo

Para seios onde em traços de poetarquitetura
deitavam o sonho de Nonô e o chumbo da ditadura

Para seixos dos riachos recortando teu cerrado
Teu recato transbordado
teu mistério desvendido

Tua poesia me chama quando chego em você
nada muito a dizer, minha amante consentida
De ti nasceram meus filhos com a Guanabara
Mais brasileiros, como poderemos ser?

Parabéns, querida ama de música
que me mostrou o céu de frente, o voar no chão
o bater meu tambor no teu Brasil coração

domingo, fevereiro 14, 2010

Carne de Sol, Carne do Sol.

Que me desculpem os vegetarianos, pródigos por uma dieta piedosa com os animais e prudentes com seus sistemas digestivos, mas a carne faz parte da dieta humana sob diversas formas, e muita gente, me incluo, gosta de saborear um bom bife. De tempos para cá, praticamente reduzi à metade o consumo de carne bovina, mas há meios especiais de saboreio dos quais não abro mão. Dividindo espaço com um eventual churrasco, uma carne assada de pá ou peito, ou uma paleta de carneiro dormida em cominho e hortelã, a carne de sol, (ou "do" sol), pontifica entre as especialidades da casa.

A carne de sol tem origens diversas, histórias contadas de todo canto, mas a verdade é que em comum todas as versões se encontram no fato de que alguem precisou um dia salgar a carne para conservá-la em tempos sem geladeira. Quanto mais sal, mais tempo de conserva.Na época do Descobrimento, as carnes, além do sal, eram protegidas de fungos, moscas e suas larvas com sal e muito tempero, as chamadas especiarias, que eram base das transações econômicas da época e citadas pelos historiadores como motivadoras das rotas marítmas que deram outra cara ao mundo.

A carne de sol tem versões diversas de acordo com a região: umas se curtem mesmo ao sol, outras depois de salgadas deitam seu soro sob o sereno. Os cortes variam com as preferências, como mudam os nomes das partes do boi Brasil afora.

As minhas versões preferidas são as da cidade  de Rui Barbosa e da Chapada,  na Bahia, as servidas em Natal RN, Pernambuco, Paraíba e as espetaculares carnes de sol de carneiro e bode de Teresina.

Mas lembro das viagens com meus pais  a Feira de Santana, na Bahia ainda garoto. A feira "de Feira", gigantesca, com gente vinda de todo lugar para vender e comprar, exibia nas suas barracas aquelas mantas enormes de carne do sol, que minha mãe cuidadosamente ia escolhendo, enquanto eu salivava antecipando a hora do almoço que viria  sob a regência daquelas mãos mágicas a preparar um bom pedaço para ser comido com pirão de leite, um feijaozinho, um suco de mangaba...
Patinho, coxão-mole...Mais magra a primeira, mais adiposa a segunda, eram as preferidas de Dona Ruth.

E a cada nascer do sol, essa iguaria volta e meia aparecia na mesa lá de casa. Depois, morando em Brasilia, aproveitamos a boa presença nordestina no lugar para continuar no hábito. Mas sempre, comprando pronta em açougues onde um bom nordestino conservava carne e cultura. E assim aderiram também ao gosto a minha companheira e os nossos filhos.

Aqui no Rio, ao chegar, percebi que carne do sol não se encontra em todo lugar, perto de casa. É preciso que se procure restaurantes especializados, ou então indo direto à Feira de São Cristóvão, onde o que não falta é opção para se comprar,  seja nos restaurantes ou nos açougues.
Vindo com a força do hábito, era pouco para mim. Não ter carne do sol no açougue da esquina era o fim. Resolvi fazer a minha própria. O sertão bravio clamava no meu estômago. As caravanas vencendo a caatinga do interior baiano rugiam no DNA. Brumado, Boninal, Seabra, Lençois...A rude carne do sol que se apaziguava as faces ensolaradas e curtidas do sertão baiano chamava o frugal bife com fritas e feijãozinho preto carioca de "fulêro".

Parti para um açougue, comprei um bom pedaço bem gordo de chã (como chamam aqui o coxão-mole), e o coloquei na tábua. Abri lateralmente, no sentido da gordura para baixo, um bifão de uns 3,5 cm de altura até pouco antes de transpassar. Em forma sanfonada (tudo a ver!), no corte, voltando no sentido contrário, fui dando forma àquela peça que seria a primeira de muitas.Salguei, com sal fino (é melhor para controlar a quantidade. O sal grosso passa do ponto muitas vezes), deixando a mesma com uma crosta esbranquiçada de sal e a deitei numa vasilha grande. Seis horas marinando, escorri o soro, salguei de novo. Quatro horas marinando, escorri mais soro e acrescentei um copo  de leite integral, onde ficou por mais 4 horas. (O leite redistribui e equilibra o sal, retirando o excesso sem tirar o sabor da carne, como a água faria. A carne de sol desse preparo não precisa escaldar nem por de molho.) Continuando,  já  de noite, pendurei a danadinha  protegida por um filó  e a deixei serenar, a retirando no final do dia seguinte...Estava pronta a minha vingança cultural, satisfeito meu paladar e fica como receita para quem ler.

Só lembrando: Carne de sol e carne-seca ou charque, são coisas diferentes. Cuidado com a pressão alta!

abraços

João Bani

segunda-feira, dezembro 07, 2009

A riqueza e a "Civilidade"


Hoje as tvs exibem, além da festa do clube campeão e dos que se salvaram, imagens de violência descontrolada que mostram que educação e civilidade nada tem a ver com classe social ou indices de qualidade de vida.

Em Curitiba, uma das cidades de IDH (Indice de desenvolvimento humano) mais elevados do País, o vandalismo e a barbárie tomaram conta do Couto Pereira, na insatisfação de torcedores paranaenses pela queda do "Coxa".

No Rio, enquanto bairros humildes da zona norte e do subúrbio comemoraram o título do Flamengo na paz, um dos bairros de IDH e renda per capita mais altos do Rio e do Brasil, o Leblon, virou praça de guerra de filhinhos de papai marombados e praticantes de artes marciais, torcedores do mesmo clube, que venceu o brasileiro. Imagine se tivesse perdido.

Quando a gente vê uma menina como a Cristal tocando piano absurdamente bem surgir de uma favela do Recife. Ou vê um Presidente da República oriundo do Sertão e do operariado ,preconceituosamente chamado de "analfabeto" ou "ignorante" por alguns se tornar líder internacional respeitado e ouvido, com um governo de indices de aprovação elevadíssimos e resultados sociais nunca obtidos antes..Quando eu vejo uma menina como a Mayra, 17 anos e líder na Favela da Vila Cruzeiro na luta contra as desigualdades, a quem muito orgulhosamente dou simples aulas de percussão, ser eleita Nobel da Paz Mirim e receber reverencias do Bispo Tutu, além ser considerada uma das 100 personalidade do ano pela revista Época...Quando vejo o Adriano, também da Vila Cruzeiro, desafiar os "cretinos fundamentais" e os "óbvios ululantes" (obrigado, Nelson Rodrigues) do pensamento raso monetário de que foi louco por trocar a infelicidade ultra remunerada na Europa pela felicidade de estar perto de casa e das coisas simples da vida...

A gente percebe que o querer é maior que o "Poder". Porque o querer que luta tudo pode, e com o sacrifício faz muito melhor.

segunda-feira, agosto 31, 2009

KINDALA


Formado pelas irmãs Daniele, Gabriele e Liliane Correa, o Kindala  traz a sonoridade herdada dos antepassados africanos em músicas de louvor a Deus e à cultura quilombola.

Originalmente denominadas "Trio Remanescente de Cantoras Quilombolas da Praia Rasa", o grupo adotou, por sugestão do produtor e músico João Bani, o nome de "Kindala", que quer dizer "Agora" na língua Kikongo-Kimbundo, de Angola, nação berço dos escravos que foram desembarcados na Praia Rasa, em Búzios, no Século IXX.

Cantando juntas desde a infância, nas Igrejas Evangélicas da Região de Búzios, desenvolveram uma interação vocal surpreendente, estimulada em muito pelo pai, músico evangélico que sempre pregou a valorização da sonoridade africana.

Atualmente estão em fase de Pré-produção do seu primeiro CD, com produção do Músico João Bani (www.myspace.com/joobanipercussioncomposer) e arranjos de João Bani e Humberto Mirabelli.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Leny Bello

Leny Bello

Ela é agitada, ansiosa, irrequieta e sincera. Ela rebate na lata, ela não te falta, ela está sempre pronta. Esse coração aberto de passo marcado, de compasso dividido por quantos for necessário. Essa mulher forte, amiga, leal, que nos apresenta os maiores valores que podemos esperar de uma amizade, carinho e verdade, chama-se Leny Bello.

Já se vão três anos do final de 2005, quando você se mostrou para mim uma grande amiga num momento de perda, com suas sinceras orações pela minha mãe.

Leny, minha querida. Dona Ruth recebeu suas orações, eu tenho certeza disso. Não sei se corações corajosos e generosos como os de vocês duas tem alguma espécie de “clube”, ou sociedade entre os diversos planos espirituais, mas ver nossa amizade, tudo o que você me ofereceu, o exemplo de vida, o entusiasmo, a energia, tudo me vem como uma encomenda de Dona Ruth.

Leny, a cada quarta feira que você ajudava uma entidade assistencial, você me ajudava também. Cada quarta era a “feira” de quinta e com ela eu pude contar durante todos esses meses. Nosso ciclo de Canto e Cantoria este ano inicia agora sua pausa exatamente quando novas oportunidades profissionais surgem para mim. E me dão a certeza de que mais valeu estar ao seu lado, da sua positividade, da sua garra e sinceridade, do que ter dado atenção a tristes vaticínios que tentaram impingir a meu futuro profissional. Meu tambor bate forte e para o bem! Meus “sérios problemas” agora são outros, como por exemplo, tentar conciliar uma agenda. E o de passar as quartas feiras sem sair daqui do Grajau de tardinha, pegando o rumo do Canto e Cantoria, para cortejar sua belíssima obra, minha querida. O ciclo da vida segue, novos ganhos e perdas virão, novas safras e entressafras, mas o que se consolida no coração não se esquece.

Muito obrigado, que Deus abençoe nossa amizade.

João Bani, 15 de outubro de 2008

quarta-feira, maio 21, 2008

Os Grandes Clubes não morrem



Dia de clássico interestadual decisivo no Rio. No Engenhão, Botafogo e Coríntians fazem o primeiro dos dois jogos entre os times, na semifinal da Copa do Brasil
Voltando de um ensaio, chegando com o carro cheio de instrumentos, vejo aquele bar onde há todo tipo de cerveja, todas geladas, ainda aberto. Para melhorar, o gerente ainda é conterrâneo , baiano de Valença, meu amigo Heron. O Rio de Janeiro tem uma identidade com a Bahia que diminui o eterno banzo de todo baiano longe de casa. E a descontração, a conversa de bar, tudo isso nos deixa mais à vontade. Heron é Vitória, e, como tal, aproveitando o bom tempo em que não nos víamos, alfineta com aquela gozação que estava guardada especialmente para mim, depois da conquista do bi-campeonato baiano pelo seu clube:
- Marrapaaazz... Eu nem comemoro tanto o bi campeonato...Bom mesmo é ver o Bahia 7 anos sem ganhar nada...” E cai na gargalhada...
Rio com ele, contrariado, mas rio com o Rio baiano que se mostra ali. Peço uma cerveja gelada, e aproveito para contra-atacar.
-Mas quero uma Original. Nada de genéricos...hehe
E o Rio vai desaguando então ,no bar, com dezenas de torcedores do Botafogo que chegam do estádio Engenhão, templo arrendado pelo clube para mandar seus jogos. Um estádio moderno, que foi construído em função do Pan-Americano do Rio. Os botafoguenses comemoram a vitória de 2 a 1 sobre o Coríntians, nas semifinais da Copa do Brasil.
Vejo a torcida do Botafogo e relembro um dos muitos bons momentos que passei e tenho passado ao lado da minha Vania, botafoguense, ovelha alvi-negra numa família onde seus pais e irmãos são flamenguistas. Era junho de 1989 , ainda vivíamos em Brasília, já havíamos juntado nossos sonhos e esperávamos nosso João Pedro ,que nasceria, como nasceu, no mês seguinte. Pois bem, naquela noite de 21 de junho de 89, um gol de Maurício acabava com o jejum de 21 anos sem títulos do clube da estrela solitária, em decisão contra o Flamengo. 21 anos. Poderiamos até dividir este número por cada um dos seus grandes rivais: Flamengo , Vasco e Fluminense...7 anos sem ganhar, a cada grande adversário.
Minha companheira era uma alegria só, e exigia minha participação na comemoração. Quase relutei a principio, pois, tricolor baiano desde o berço, apaixonado pelo meu Bahia, tenho no Flamengo o time de simpatia no Rio. Afinal se equivalem em seus estados como times de maior apelo popular, e como os maiores vencedores, de conquistas na base da raça, da mística. Mas minha simpatia pelo urubu carioca não era o suficiente para me impedir de comemorar junto com ela , solidário, o fim do jejum alvinegro. Afinal, alguns meses antes ela vibrara comigo acompanhando a grande conquista do meu Bahia no Campeonato Brasileiro. O amor é capaz de coisas assim pelo futebol, ou o futebol é capaz de coisas assim pelo amor?
O Botafogo de 21 anos de seca era alvo de chacotas de todos os torcedores adversários, inclusive minhas. O Valdir Espinosa se revelava ali um técnico habilidoso com o desacreditado material humano com o qual contava, e motivou seus jogadores de uma forma que eles conseguiram se superar. A superação é um bem de quem é grande , de quem nunca perde a majestade. De quem É, não de quem simplesmente está. Desde então, o Botafogo venceu mais 3 cariocas e o seu primeiro Campeonato Brasileiro, se igualando ao Bahia em conquistas nacionais, já que fora campeão da Taça Brasil de 1968.
O Bahia é e será um grande clube. Vai superar suas dificuldades. Me lembrei do exemplo do Botafogo para mostrar que os grandes clubes, grandes mesmo, nunca morrem, pois estão vivos, ainda que por 21 anos ou mais, nos corações de seus torcedores.
BoraBaheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

sexta-feira, abril 11, 2008

Rádio-Cabeça



O ônibus era puro barro, numa Brasília das primeiras chuvas, avenidas monótonas, paisagens que só o tempo deixava desiguais. Era preciso passar muitas vezes por elas para aprender a diferenciar cada quadra da outra, cada parada da próxima ou passada... A música na minha cabeça rolava entre Deep Purple e Noel Rosa. Os primeiros me haviam chegado muito tempo antes, pelos discos do meu irmão. O Poeta da Vila, por uma coleção mensal sobre MPB que tínhamos em casa.

Smoking “under” the water, quase como Jon Lord, Blackmore e tribo, com um cigarro aceso e quase molhando, mas sem mosquito para espantar quase como Noel, eu sem saber vivia o porque da música ser um traço definitivo na vida de certas pessoas. Diante do silêncio da capital nos anos 70, só Música para me fazer companhia nos percursos daqueles ônibus mudos e imundos. Eu desenvolvera em minha mente uma discoteca. Ainda não havia chegado o walkman, hoje eletrônico dinossauro. Rádio com “egoísta” poderia ser uma solução. Mas em stereo, com repertório próprio e com o arranjo destacando o que se queria, somente a Rádio Cabeça.

Morava na Vila Planalto, uma comunidade remanescente dos pioneiros da construção da Brasília, numa bela casa de madeira, com um grande quintal, numa família onde os discos juntavam o sertão de Luis Gonzaga dos meus pais, reminiscências da Jovem Guarda, Chico Buarque, Caymmi, Gal, Gil, Elis, Caetano, Stones, os já citados Purple e Noel, coisas da Motown...Era um ecletismo bastante saudável. Gosto muito do que ouvi. Hoje, sem sugerir uma palavra que os direcione, vejo meus filhos gostarem também de muitas dessas coisas. Descobriram na internet.

A mudança para Brasília, que ocorrera anos antes, fora um dado importante nessa musicalização. As interações culturais da cidade , com gente chegando de todo o país e muitos estrangeiros residentes, destacavam personagens da nova cena musical naqueles tempos ainda de regime militar, quando aconteciam pequenos filhotes de Woodstock nos Concertos ao Ar Livre que os chamados “agitadores culturais” promoviam nas entrequadras.

Mas na minha Rádio cabeça, no Norte daquela bússola onde imerso eu seguia olhando o céu de frente na Capital, naquela metade dos anos 70, um repertório novo surgia . Rose, uma das minhas irmãs, verdadeira Rosa dos Ventos Musicais, chegara em casa com um LP, Minas, de um cantor e compositor que então já era consagrado, mas que passara ao largo da minha Rádio cabeça durante algum tempo. Ouvi, e ouvia o Gran Circo de introdução triunfante, com harpas , com vocalizes do Pará em Fafá, as percussões ricas, o Trastevere me apresentando free jazz com vocais de catedrais. Os compassos compostos soando naturais, as Asas da Panair, o beijo Partido unindo Paula a Bebeto.

Minas , o disco, e Minas , a terra, me mostravam caminhos para tanto lugar... Com divisa relativamente perto do Distrito Federal, pelas bandas da obra de Guimarães Rosa, bem ali estava a Minas do peixe vivo, do Juscelino que gerara aquela Brasília onde embalava os percursos da minha Rádio imaginária agora ao som de um filho seu e sua turma.

Minas, o disco, me levou a Geraes, me resgatou o Clube da Esquina anterior que eu não conhecera, me impressionou com Raça. Me mostrou Journey to Down , viagem melhor que as bad trips de tantos heróis da época. Naqueles ônibus, eu pagava a passagem com um Tostão, One Coin, mais valioso que um milhão. Lília era trilha sonora da L-2, superquadras passando... Com Fé cega e Faca amolada eu enfrentava o vazio do Eixo Monumental. “Menino” me mostrava em barro as crianças largadas na Rodoviária, “Fazenda” era orvalho no seco Cerrado...E eu com o silêncio do ônibus, com gente tão calada nos bancos, tempos de regime militar...Que rádio estariam ouvindo, que programação teriam para animar o silêncio daqueles medos?

Pensei em escrever sobre isso para celebrar uma alegria espiritual e profissional que me tem sido ofertada há alguns anos. A de poder, eventualmente, colocar a serviço do maior hitmaker da minha “Rádio Cabeça” os meus tambores, minha música, o que não deixa de ser uma retribuição. Ele me deu a música, que a tome de volta. Há alguns anos, pela generosidade da confiança do amigo e mestre de percussão Marco Lobo, titular absoluto do time do Bituca, tenho tido oportunidade de participar de shows do Milton, como substituto. Na última delas, em Belo Horizonte, diante de uma multidão na Praça da Estação, tive a boa e velha Rádio Cabeça a me auxiliar , na lembrança daquela trilha sonora que me conduzira pelas ruas de Brasília e que afinal me levara até ali, àquele palco. Fosse futebol o ofício da minha alma e seria como estar em Santos jogando bola com Pelé.

A diferença é que nos jogos do time do Bituca, ninguém perde.

A Rádio Cabeça agradece.