sexta-feira, janeiro 19, 2007

Bahia: Capoeira, Tambores e Futebol.


O Futebol , como praticante, nunca foi meu forte, nem esse esporte teve ou tem destaque maior dentre as atividades dos filhos de Dona Ruth e do Professor Sá Teles, desde os tempos de Itapagipe, em Salvador, até nossa vida em Brasília.

Meu pai até tem em suas memórias publicadas, referências ao time de basquete que treinou , formado pelos seus alunos no agreste da Chapada Diamantina nos anos 30/40. Minha irmã mais nova, Joseane, é uma formadora de jovens atletas de GRD - Ginástica Rítmica Desportiva, profissional dedicada e competente, e seus filhos são bons de bola, mas nada podem esperar nesse sentido dos tios, eu incluído.

Minha relação com o esporte sempre foi difusa, como na capoeira onde ingressei, já morando em Brasília, como aluno do saudoso mestre Chibata. Assim me tornei percussionista: Mais entusiasmado com os pandeiros, atabaques e berimbaus, do que com as "negativas", "Meias-Luas-de-Compasso", "Queixadas" e "Martelos-rodados", preferi rodar em direção à roda de samba, me afastando da de capoeira, mas ainda levando a certeza de ter sido batizado de alguma forma na arte de promover a cultura que o sangue dos meus ancestrais deixou marcada em mim. E o mestre Chibata, baiano de Mar Grande, era um desses embaixadores da cultura negra. Ensinava a jogar capoeira, ensinava a tocar, a cantar e a ser um cidadão brasileiro.

A força da origem me legou a alcunha de "Baiano". João, Baiano, torcedor do Bahia tal qual o professor Sá Teles. O "Baiano" se reduziu e virou Bani, apelido aplicado pelo anglicismo roqueiro e gaiato de um saudoso amigo, Fábio, guitarrista dos bons, e assim ficou até hoje. Seria uma referência a Bunny (Wailer) Livingstone, percussionista integrante e mentor dos Wailers , banda primal de Bob Marley e Peter Tosh, dos quais sempre fui devoto, desde aqueles tempos. Ouvir reggae, tocar tambor e torcer pelo Bahia: A pretíssima trindade que embalava minha juventude.


Torcer pelo Bahia, morando em Brasília, era uma resistência cultural diante da predominância de torcedores de times do Rio, São Paulo e Minas. As informações sobre o tricolor eram parcas. Eu ficava procurando um posicionamento favorável do aparelho para sintonizar melhor a Rádio Sociedade da Bahia AM ou Ondas Curtas, e acompanhar os jogos do Esquadrão de Aço baiano. Naquele tempo valia a pena. O Bahia era quase imbatível na Fonte Nova, seu templo, e sempre estava bem colocado nos campeonatos brasileiros, sem passar o vexame que vive nos dias de hoje, rebaixado à terceira divisão. Era um entusiasmo que me levou à ilusão de me acreditar um jogador de futebol: Cheguei a treinar nos mirins do CEUB, em Brasília, como um lateral direito atabalhoado mas corredor, porém sem futuro algum. Pelo menos, a prática dos treinos me garantia alguma desenvoltura para, nas férias em Salvador, formar canchas imaginárias de "Perivaldos", "Baiacos" e "Douglas", ídolos tricolores da época, com meus primos, nos campos de "Baba" e nas areias batidas da praia de Placaford. As mesmas areias que , de tão batidas, não amorteceram o impacto sobre o meu braço, numa queda que levei jogando, devido a uma rasteira de um oponente desleal: Quebrei o braço. Percussionista de braço quebrado é cantor afônico. E fiquei por mais de 50 dias sem poder tocar meus tambores: Desanimei com o futebol.

Esse desânimo com a prática do Futebol chegou ao torcedor, já há alguns anos, enquanto tenho acompanhado a decadência imposta ao Esporte Clube Bahia pelos seus dirigentes. Desde a metade dos anos 90, o Bahia, Bi Campeão Brasileiro, o clube com mais títulos e maior torcida, dentre todos os do Nordeste do país, detentor de vários recordes de público no futebol brasileiro, tem sido submetido a vexames, rebaixamentos à segunda e terceira divisões, sofrido goleadas, e humilhações. Mas sempre manteve a capacidade de formar bons jogadores.

Ontem eu pude resgatar um pouco da alegria de ser Bahia, graças aos jovens da categoria de juniores, com menos de 18 anos, que representam o tricolor na Copa São Paulo de Futebol Junior. Apesar de tratados pelo clube com uma precária alimentação à base de arroz e pão com ovo, eles vêm fazendo uma campanha espetacular e , num jogo heróico diante da Ponte Preta tiveram a capacidade de lavar a alma dos verdadeiros torcedores do Bahia. Já fizeram muito por nós, acordando de novo a dimensão do que é ser torcedor do Esquadrão. Se não passarem pelo Atlético do Paraná, tudo bem. Mas a garra dessa turma me mostra que ainda é possível tirar aquela velha camisa azul vermelha e branca da gaveta e gritar: É CAMPEÃO!

Enviei um texto sobre o assunto, que foi publicado no melhor portal dos Bahia na WEB, o www.ecbahia.com.br, o qual reproduzo aqui:

OS MENINOS DO "PÃO COM OVO".

Hoje , mais uma vez, pude ter de volta a emoção e alegria de ser baiano e Bahia. Prato na mão, ainda almoçando, vi honrando a camisa tricolor garotos da idade do meu filho, que ao meu lado, mastigava seu bife prestando atenção, vendo seu pai ser menino de novo.

Do goleiro Júnior ao Anselmo Ramón, todos eles me reafirmaram que o Bahia é vivo, que o Bahia vibra, que o sangue de Marito, Baiaco, Douglas, Bobô, Charles é linhagem pura que se incorpora quando aquele manto colorido com a glória do mais tradicional e querido Estado do Brasil se veste sobre esses novos baianos.

A personalidade do Eduardo, a garra e liderança do Williames, a técnica a serviço da garra que o Ananias apresenta, não dá pra destacar poucos. Todos se empenharam em cada lance , não vi nenhum momento de displicência. A finalização os traiu diversas vezes, mas a justiça olhava pra eles com carinho. Viria a vitória com dificuldade, mas viria.

Viria após um empate cavado por um ensaboado Paulo Roberto, levando ao desespero os garotos tratados a leitinho Mococa da Macaca. Viria na expressão de quase desdém do garoto Júnior diante do perplexo primeiro cobrador da Ponte, que teve sua cobrança defendida pelo arqueiro tricolor. E pelas cobranças certeiras dos garotos sérios, raladores, que merecem já toda a nossa compreensão e respeito. Não vamos errar dessa vez. Vamos saber como cuidar desses meninos, para que eles nos tragam alegrias no profissional. Não vamos queimá-los. Eles não são os "Ronaldinhos baianos". Eles são eles, somente. Nós teremos alegria ao olhá-los de frente.

Já os algozes do Bahia não. Petrônio, Maracajá e CIA devem se envergonhar de ver essas crianças sustentando a honra de um Clube que eles insistem em enterrar. E se envergonharão de ver que, acima daquele glorioso escudo, as duas estrelas amarelas não são MANCHAS DE OVO do pão com ovo mirrado que os meninos tem que comer. São as estrelas dos dois campeonatos brasileiros que tornam esse clube grande. Tão grande quanto esses garotos sabem honrar

4 comentários:

Renata Santos disse...

Pura tradição baiana, traduzida em um só homem!
Puxa, a pior coisa é quebrar uma parte do corpo e não poder fazer o que gosta. Já passei por isso tb.
Típico garoto que queria estar enturmado e fazer o que os primos e os amigos faziam.
Capoeira é uma bela arte!
Agora o Bahia... ainda tem o que melhorar, aguardemos. rs
Sou tricolor tb, mas esse é do Morumbi.
Ainda bem que os tambores te fascinaram. GRAÇAS A DEUS!!!!
Muita música, felicidade e futebol
bjux

Paloma disse...

Grande Bani...
Bom eu não são grande entendedora de Futebol..aqui em Sampa Sou Timão..hehe.
Muito bom vc voltar a escrever aqui!!
A Arte está no sangue heim!!

Beijossss

Ana P Xavier disse...

Legal, Bani!
adoros essas estórias.
:)

viagra without prescription disse...

Acho que foi muito difícil manter o equipamento que eu Río de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. mas no final prevaleceu principalmente esporte ....